sábado, 28 de janeiro de 2017

CARTOLA II

Quando o poema ia lento...

CARTOLA



Angenor de Oliveira nasceu em 11 de outubro de 1908 do casamento de Sebastião Joaquim de Oliveira com Aída Gomes de Oliveira no Rio de Janeiro.

Era o mais velho de oito irmãos e, sendo filho de artista (seu pai tocava violão e cavaquinho), logo cedo tomou gosto pela música, sobretudo pelo samba. O avô materno havia sido escravo em Macaé, mas, depois da assinatura Lei Áurea, foi contratado por uma família residente no Bairro do Catete na cidade do Rio, onde, mais tarde, nasceu Angenor.

Quando da morte de seu avô materno, a família passou a ter problemas pra se sustentar, então mudaram-se para o bairro das Laranjeiras, onde passou a se apresentar tocando cavaquinho com o pai. Mais tarde, porém, ainda por motivos financeiros, a família foi para o Morro da Mangueira, um pequeno povoado com menos de cinquenta barracos nesse tempo. Foi ali que conheceu e seu tornou amigo de Carlos Cachaça, com quem fez, em parceria, grande parte de seus sambas.

Ao contar dezessete anos, sua mãe faleceu, tragédia esta que marcaria ainda mais sua vida, já que as mudanças todas, nela, foram marcadas por fatalidades. Com a morte da mãe, sua relação com o pai desandou, este o acusava de não querer seriedade com a vida e de preferir a vadiagem ao trabalho. O clima se intensificou a ponto de se agredirem fisicamente, culminando na saída de Cartola da casa do pai.

Cartola passou então a viver de bicos e perambulando pelas ruas. Nesse período é que ganhou o apelido de Cartola, por causa de um chapéu coco que usava pra evitar que a sujeira da construção caísse em sua cabeça enquanto trabalhava como ajudante de pedreiro; dizia que tinha o melhor trabalho do mundo, pois, além de conseguir um bom dinheiro, também podia gastá-lo com mulheres (por causa de seu gosto por elas, e suas frequentes visitas à zonas de meretrício, adquiriu diversas doenças venéreas, o que lhe causou ainda mais debilitação); foi quando uma vizinha, Deolinda, passou a cuidar dele. Mesmo casada, acabou se envolvendo com o futuro sambista, deixando a casa do marido, com a filha, para viver com Angenor. Cartola, como os demais moradores do barraco (o casal o dividia com amigos), não trabalhava, eram todos sustentados com o trabalho doméstico de Deolinda , e vivia se metendo em brigas e confusões com outros boêmios em suas noitadas pelas ruas da cidade. Este grupo de amigos, e arruaceiros, mais tarde, formaria o núcleo originário do Bloco Da Mangueira, depois Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira; o nome foi dado porque, a partir da Central do Brasil, a Mangueira era a primeira parada do Trem Metropolitano.

Sua vida de boêmio e compositor só passou a gerar lucros em 1930, quando foi procurado por Mário Reis que pretendia comprar um de seus sambas. Cartola vendeu a Mário Reis "Que Infeliz Sorte"; a gravação fez com que, pela primeira vez, fosse ouvido e reconhecido fora do Morro da Mangueira.

Até 1940, sua vida e sua carreira eram de sucesso, na Mangueira e fora dela, mas, a partir deste ano, com a nova direção da Escola de Samba e o claro descaso da Gravadora com seu trabalho, Cartola viu seus sambas serem rejeitados pela Mangueira (sua escola do coração) e pelos interpretes dos estúdios. Até 1947 se viu impossibilitado de compor e se apresentar por causa de uma meningite, que o deixou alguns dias em estado de coma e mais um ano dependendo de muletas para se locomover. Se mudou para Nilópolis por ter vergonha de seu estado físico e profissional, onde era cuidado, mais uma vez, por Deolinda. Mas, pouco depois, ela também viria a falecer.

As coisas só fizeram piorar até por volta de 1950, quando Dona Zica o encontrou muito maltratado: entregue à bebida, desdentado, fraco e com a face desfigurada por causa de uma infecção no nariz. Dona Zica o levou para sua casa, na Mangueira, ela já o conhecia dos tempos de fama e sucesso, e seria sua nova e definitiva esposa.

Até 1957, ajudou a esposa trabalhando em empregos temporários e mal remunerados, entre eles, vigia e lavador de carros de um edifício em Ipanema, onde o cronista e jornalista Sérgio Porto o encontrou e o reconheceu, passando a partir de então a lhe dar uma ajuda, através de seus contatos, pra que sua carreira reiniciasse.

Depois de um trabalho como contínuo num jornal e algumas apresentações, conseguidos com a ajuda do fã e amigo jornalista, Cartola e Dona Zica abrem juntos um restaurante, O Zicartola, onde ela cozinhava e ele recebia amigos e intelectuais em uma roda de samba. A fórmula foi um sucesso, mas durou pouco: por falta de tino administrativo, não conseguiram fazer com que o restaurante lucrasse o quanto podia. Em dois anos o restaurante fechava suas portas.

Na década de 1970, veio a consagração definitiva, Cartola, amado por estudantes e intelectuais do Rio, era chamado a se apresentar em praticamente todos os eventos e debates promovidos pela juventude engajada da cidade. Assinou contrato com a Gravadora Marcus Pereira e iniciou o registro de "Cartola", seu primeiro álbum de estúdio, até então era conhecido por gravações piratas ao vivo e por interpretações de cantores famosos. O disco fez tanto sucesso, que dois anos depois nasceu "Cartola II" como uma continuação do primeiro e com maior sucesso de vendas e crítica. Este, de 1976, também se chamava "Cartola", mas se convencionou chamá-lo de "Cartola II" para que se pudesse diferenciar as duas joias da produção fonográfica brasileira.


Sua carreira e vida pessoal, finalmente, se estabilizaria até 1980, ano em que faleceu.


Pode-se dizer que Cartola sofreu a fatalidade comum ao mulato pobre brasileiro até a velhice (falta de oportunidade justa e falta de consolo social; só não sofreu de falta de amor, isto, aliás, sempre teve de sobra, sendo, inclusive, aquilo que muitas vezes lhe colocou de volta no trilho da vida ganha com arte); aos 60 anos, passou a gozar de fama e sucesso com o que tinha vivido, guardado e reconstruído em suas canções.




O LAMENTO NO MORRO


O LP foi gravado depois do sucesso alcançado com o primeiro da retomada, que se chamava simplesmente  "Cartola"; talvez, com esperança de atingir o mesmo sucesso, ou superá-lo, também foi nomeado "Cartola"; este, agora com o compositor e sua amada, Dona Zica (o primeiro trazia somente o Cartola sorridente), estampados na capa ficou conhecido como "Cartola II", como forma de distinção entre ambos. Porém, ao contrário do álbum de 1974, este trazia produção mais requintada, e versos mais tristes embalados em andamentos mais arrastados. Ambos os discos abordam a tristeza da desilusão amorosa, mas o primeiro soa mais esperançoso que o segundo.

"Cartola II" parece até uma coletânea de sucessos, pois o ouvinte, inconsciente da discografia, pode acompanhar a reprodução da obra cantarolando, do princípio ao fim, todas as faixas; a começar por "O Mundo É Um Moinho". Lamentosamente, o choro da flauta nos introduz no disco acompanhado da voz indecisa do violão e, depois, da do Cartola cantando: "Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora de partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar". Esse lamento indeciso continua até o fim dos versos e estrofes. Quando digo lamento, além do tom e andamento da canção, é porque se percebe isso claramente nas palavras da canção, onde o eu-lírico tenta avisar a uma jovem, que vai entrando na vida com euforia, o quanto esta vida vai maltratá-la e torná-la mais uma pessoa desiludida. Quando digo indeciso, é porque, assim como os instrumentos citados, a voz do interprete entra na canção fraca e quase vacilante, parecendo mesmo alguém expressando indecisão, mas não por não saber do que fala, e sim por não estar certo se deve mesmo falar o que sabe, e, talvez até, por ter esperança de que seja diferente com esta que agora se aventura pela vida.

Porém, na segunda parte da canção, quando é repetido todo o texto, tudo toma corpo: o violão, a flauta, a voz... e a percussão se mostra, trazendo mais força enfática ao que se quer dizer com as palavras, que se resume a algo como 'você não é diferente de mim, vai sonhar e amar como eu amei, vai cair e sofrer como eu sofri':

"Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

E põe um ponto final no que pretende explicar.


"Minha", a seguir, vem mais animada no andamento e na riqueza de instrumentação desde o início, mas com aquela tristeza vingativa na voz e no texto, ao reclamar que a musa nunca teria sido sua. Interessante é o uso da dialética na canção, que tem, como título, o pronome possessivo "Minha" e, como anáfora, "Minha? Quem disse que ela foi minha?", negando assim a proposição posta de que um certo alguém teria pertencido ao eu-lírico, hipótese refutada com argumentação lógica e voz embargada como quem lamenta não ter tido e como quem gostaria de se vingar de quem o tivesse iludido, e que agora se ilude por não saber da verdade:

"Minha
Quem disse que ela foi minha
Se fosse seria a rainha
Que sempre vinha
Aos sonhos meus

Minha
Ela não foi um só instante
Como mentiam as cartomantes
Como eram falsas as bolas de cristal"

Minha
Repete agora esta cigana
Lembrando fatos envelhecidos
Que já não ferem mais os meus ouvidos"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

Com um pouco mais de alegria, "Sala de Recepção", com Creusa, passa da musa mulher para a musa morada: aproveitando a fama e o sucesso da escola de samba do Morro da Mangueira e o descaso do povo do asfalto com alegria da gente que ali vive, o eu-lírico descreve a felicidade do povo simples do morro, que é feliz justamente por ser simples; perguntado como poderia, sendo tão pobre, ainda assim cantar o Morro da Mangueira, dá, como resposta, que é porque não deseja nada além disso: cantar e ser ouvido.

"Habitada por gente simples e tão pobre
Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, mangueira, cantar?

Pois então saiba que não desejamos mais nada
A noite, a lua prateada
Silenciosa, ouve as nossas canções

Tem lá no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
E temos orgulho de ser os primeiros campeões

Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
E as outras escolas até choram
Invejando a tua posição

Minha mangueira essa sala de recepção
Aqui se abraça inimigo
Como se fosse irmão"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

E, por isso, a paz e a felicidade é que reinam na "sala e recepção" do morador da Mangueira.

Na canção seguinte, "Não posso viver sem ela", ainda mais ligeira que a anterior, o lamento se torna ação efetiva para o eu-lírico, que usa suas mágoas a fim de tentar convencer a mulher amada a voltar pro lar, abandonado por ela.

Perceba que o lamento é sempre a 'arma' usada pelo eu-lírico nos enfrentamentos até aqui; mesmo ao falar da felicidade do povo da Mangueira, esta viria do fato de poder lamentar (cantar):

"Tive que contar a minha vida
A esta mulher fingida
Que me faz sofrer
Esta dor que tanto me crucía
Roubou toda a alegria
Do meu viver

Pode ser que ela ouvindo os meus ais
Volte ao lar pra viver em paz

Esta malvada bem sabe o mal que me fez
Mas não faz mal eu lhe perdoo outra vez
Meu coração vive reclamando noite e dia
Por isso eu peço que ela volte para a minha companhia"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

Mas o canto volta a se arrastar! Aquele que pensava que a alegria, mesmo lamentosa, tomaria conta do resto do disco, num crescendo de firme propósito, se enganou. Antes de terminar o Lado A, ouvimos novamente vozes vacilantes de um violão e de um fagote introduzindo o ouvinte na tristeza do eu-lírico. Genialmente, é colocado o fagote como instrumento melódico nessa introdução, fraseando a linha que seria cantada na segunda parte pelo interprete. O som grave do fagote, o mais grave dos instrumentos de sopro de madeira, aliado ao dedilhado reticente do violão, dão tamanha ênfase ao tom melancólico que viria a seguir, que se torna impossível não parar o que se faz pra dar atenção à tragédia a ser contada.

Contudo, a tragédia aqui contada não seria totalmente passiva: mais uma vez, o lamento se torna, na canção, instrumento de ação contra o opressor. Acabando a primeira parte, em que o fagote é só lamento para o violão, a voz do interprete entra, agora acompanhado também da energia da percussão, dizendo enfaticamente que precisa se afastar do que faz o eu-lírico sofrer:

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

A ação vem do lamento também, mas não é usada propriamente como arma nesta canção, mas como motivo pra fazer diferente: "Sorrir pra não chorar"; pois, provavelmente, desta vez, o sofrimento fosse tanto, que não haveria choro que bastasse.

Tenho esta canção como o clássico dos clássicos de Cartola, ainda mais do que "As rosas não falam", ou qualquer outra. Principalmente, por trazer à tona a verve de rebeldia integrante da personalidade do autor; sempre que se sentia vilipendiado por algum motivo, em sua mocidade sobretudo, o poeta se abandonava em revide verbal ou físico, o que acabou lhe dando fama de arruaceiro e lhe rendendo algumas prisões  por desordem da ordem pública.

Na segunda estrofe, são apenas duas, repetidas muitas vezes, o eu-lírico demonstra sua mais verdadeira angústia: a falta de vida. Coisas tão simples, tão básicas, tão necessárias e, ao mesmo tempo, tão distantes de quem, na pobreza, se vê confinado nas intrigas e nas obrigações das pessoas e das cidades. Sair, se afastar, procurar motivo pra sorrir seria um outro modo de se rebelar contra a opressão, as outras seriam destruí-la ou modificá-la, mas o que poderia um poeta pobre do morro fazer além de fugir?

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)


"Peito Vazio". No fim do Lado A, uma Seresta mansa, doce, chorosa...  sobre a saudade desce nos corações pra alentar as mágoas todas de todos. A partir do nada a dizer, o compositor pôde construir uma pérola sobre a angústia de não conseguir se expressar ou expressar o que não sente aquele tomado pela saudade. Esta Seresta é um adendo destoante no álbum: é mansa, como toda Seresta, o que significa resignação e aceitação dos fatos; a letra é longa e sem refrão ou anáforas, o que acarretaria numa provável impopularidade por conta do grau de dificuldade imposto para a memorização. Particularmente, acho que a voz de Cartola coube perfeitamente na Seresta; se tivesse gravado mais canções como esta, os ouvidos brasileiros poderiam estar muito melhores hoje.


Se o primeiro lado de "Cartola II" começa vacilante e tristissimamente , o segundo dá um tom mais festivo ao início, por causa do andamento e dos arranjos usados em  "Aconteceu", um samba 'de raiz' perfeitamente eficaz pra contar mais um lamento do poeta. Sim, "aconteceu" uma seresta; sim, é uma canção alegre - musicalmente- , mas as palavras ainda são o velho e conhecido lamento do compositor. Num tom quase vingativo, de tão sarcástico, o eu-lírico vai contando de uma mulher que havia esquecido o bem que este lhe havia feito; se arrependendo, por fim, a 'musa' acaba por chorar, motivo de regozijo daquele que lhe beneficiara no passado:

"Aconteceu
Eu não esperava, mas aconteceu
Todo o bem que fiz, se fiz, ela esqueceu
Revelando a sua imprudência
Construí um lar, o lar que ela pedia
Exigiu-me coisas que ela não queria
É e aconteceu
Hoje ela chora tudo o que perdeu
E chorando veio me pedir perdão
Fica para ela a lição

Aconteceu
Eu não esperava, mas aconteceu
Todo bem que fiz, se fiz, ela esqueceu
Revelando a sua imprudência
Construí um lar, o lar que ela pedia
Exigiu-me coisas que ela não queria
É e aconteceu
Hoje ela chora tudo que perdeu
E chorando veio me pedir perdão
Fica para ela a lição"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

É aquele tipo de sentimento, vingança concretizada, mesmo sem que se faça nada pra que ela aconteça, que chega assim, meio divinamente, de surpresa. Aqui, a musa é uma mulher, mas o sentimento pode ser transferido a quem ou a quê o ouvinte mais ame: o time do coração, o patrão insensível, o amigo falso, o filho ingrato, o governante impopular...

A toada quase seresteira volta em "As Rosas não Falam", clássico do cancioneiro brasileiro e do compositor, reproduzida e regravada em número indefinível por interpretes da mais variada estirpe e procedência, não há amante da Música Brasileira, ou incauto ouvinte, que não reconheça a canção já na primeira frase do instrumental e não pare o que está fazendo pra acompanhar, em silêncio ou não, as palavras de profunda dor e sofrimento de um eu-lírico abandonado pelo ser amado. A genialidade da letra consiste em não identificar o gênero do eu-lírico ou do objeto do discurso: a pessoa amada, ou seja, pode ser cantada por qualquer um para qualquer um (homem, mulher, jovem, idoso). Outro acerto do compositor foi colocar o eu-lírico num cenário e num tempo específicos o "verão" que se aproxima e o "jardim" florido de "rosas". Os acertos na canção somam-se primorosamente, provocando empatia em qualquer um, mesmo naquele que nunca tenha sofrido por amor, a canção contém um dos melhores apelos populares e universais já compostos no Brasil: a toada seresteira acalma e relaxa os sentidos do ouvinte, a letra traz imagética e temporalidade certeiras e significativas, o tom é de resignação, a melodia é comedida e a voz soa tranquila e até esperançosa. É uma canção perfeita pra qualquer coração abatido, abatedor ou em vias de.

"Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)











"Sei Chorar"  é quase um Samba-enredo sobre a relação dor/amor, com direito a rima previsível e argumentação batida. Seria totalmente dispensável do repertório de Cartola, muito mais deste ou de qualquer outro disco.

"Sei chorar
Eu também já sei sentir a dor
Estou cansado de ouvir dizer
Que aprende-se a sofrer no amor

Hoje eu choro
E a mulher que adoro talvez
Caída em braços de outro sorrindo
Repete as mesmas promessas mentindo

Fui iludido
Sim, pela primeira vez no amor
E quase sempre seu nome repito
Em cada frase um suspiro de dor."

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

"Ensaboa", também com Creusa, vem rancheira soando como o Brasil interiorano; tem inclusive o regionalismo linguístico típico do sertão:

"Rebenta a goela de tanto chorá
O rio tá seco, o sol não vem não
Vortemos pra casa"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

onde até a dupla negativa "não vem não" remete ao modo de falar de quem vive longe do mar ou das capitais.

A canção é sobre o trabalho, única opção do pobre, que é servir: a mulher serve, ensaboando a roupa de seu "dono", o marido; o homem serve (cuidando da mulher que serve) a seu "dono", o patrão, que é rio seco e falta de sol.

Apesar disso, a canção também soa como uma sensualidade implícita no modo de cantar, principalmente no modo de cantar do interprete que representa o eu-lírico masculino, que observa e orienta o eu-lírico feminino num jogo de ordem (masculino) e justificação (feminino).

"Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando

Tô lavando a minha roupa
Lá em casa estão me chamando Dondon

Os fio que é meu, que é meu
E que é dela
Rebenta a goela de tanto chorá
O rio tá seco, o sol não vem não
Vortemos pra casa
Chamando Dondon"

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

Mas o sofrimento, pra Cartola, também vem na euforia da paixão; ao evocar a "Senhora Tentação", o eu-lírico confessa sua paixão, mas sofre por isso; sem nenhum motivo que o impeça de consumá-la, sofre somente por sentir e não querer, e pede à "romântica senhora Tentação" que o livre dos efeitos embriagantes desse sentimento. Não há uma explicação do porquê: desilusão antiga, compromisso com outra, proibição moral, ocupação inadiável... O eu-lírico simplesmente sofre por estar apaixonado, e não querer estar.

"Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução,
Oh! Minha romântica senhora Tentação,
Não deixes que eu venha a sucumbir,
Neste vendaval de paixão.
Jamais pensei em minha vida,
Sentir tamanha emoção,
Será que o amor por ironia,
Move esta fantasia vestida de obsessão,
A ti confesso que me apaixonei,
Será uma maldição, não sei,
Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução,
Oh! Minha romântica senhora Tentação,
Não deixes que eu venha a sucumbir,
Neste vendaval de paixão."

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)

E o amor do eu-lírico se realiza na última faixa do disco. "Cordas de Aço" é uma curta elegia ao companheiro do sambista, o violão. Nela, é cantado que  o instrumento é o único capaz de entender os porquês do poeta, o violão; aliás, nas letras das canções deste disco, o violão é também o único a ser tocado, literalmente, pelo eu-lírico; o amor entre o sambista e o violão é o único concreto, físico, tangível e real. Mas aqui, mesmo assim, há ainda o lamento, muito perceptível em todas as partes da canção (andamento, arranjo, interpretação vocal, letra...), com utilização, inclusive, da interjeição "Ah!" preposta ao vocativo, bastante comum aos "ais" lamentosos das cantigas de amigo medievais. Talvez possa ser a razão deste lamento final justamente o fato de um violão, objeto inanimado, ser o único amor possível pra este sambista.

"Ah, essas cordas de aço
Este minúsculo braço
Do violão que os dedos meus acariciam
Ah, este bojo perfeito
Que trago junto ao meu peito
Só você violão
Compreende porque perdi toda alegria
E no entanto meu pinho
Pode crer, eu adivinho
Aquela mulher
Até hoje está nos esperando
Solte o teu som da madeira
Eu você e a companheira
Na madrugada iremos pra casa
Cantando..."

(Cartola - Cartola II - Discos Marcus Pereira; Rio de Janeiro, 1976)




A GLÓRIA NO FIM

Cartola, bem nascido culturalmente, entrou cedo na tragédia da vida, e perambulou: de casa em casa, de bairro em bairro, de mulher em mulher, até se encontrar no Morro da Mangueira, nos seios de Dona Zica e no braço do violão. Fez o que podia e o que era preciso pra continuar vivo e íntegro. Compôs e cantou sempre, mesmo no esquecimento. E, num lance de dados, foi redescoberto quando o país carecia de raiz autêntica e sincera. Gravou seu primeiro disco, como interprete das próprias canções, em 1974, aos 66 anos,  e foi sucesso até o fim de sua vida, 6 anos depois.

Este disco, como os demais, é uma coletânea de desilusão e sofrimento, que talvez reflita a própria vida do poeta sambista. E o que teria pra contar e deixar como legado um mulato morador do morro que, apesar de talentoso, só foi reconhecido na velhice? Nada que não fosse "O Mundo é um Moinho", " Preciso Me Encontrar" e "Cordas de Aço": testamento perene pro jovem sonhador que pretende mudar qualquer coisa pra melhor, desde sua condição até a condição do próximo. A mensagem de Cartola é totalmente fatalista: não adianta querer, não adianta lutar, a glória só virá quando for tempo. Pra Cartola, a glória veio no fim, que talvez seja a única honesta e justa.

"  Na madrugada iremos pra casa / Cantando..."



domingo, 25 de dezembro de 2016

DESIRE

* Desire



O pai de todos 

Em 1960, tudo recomeçava na América do Norte: a política (agora de grande Estado), o cinema (agora com épicos americanos), a música (agora com o Rei do Rock), a TV (agora com a família americana), a população (agora geração do baby boom), a economia (agora rica), a guerra (agora fria).

Em 1960, enquanto a Europa dava os primeiros passos depois de se recomporem da Segunda Grande Guerra, enquanto a União Soviética ainda buscava reconhecimento de seus pares do Ocidente, os Estados Unidos queriam se firmar como grande líder, grande pai, grande salvador, grande conservador da paz e da liberdade capitalistas.

No início dos anos 1960, os norte americanos queriam ser globais (orientadores de todos os países), mas sem se perderem enquanto povo e unidade ideal: John Kennedy (presidente de 1961
a 1963) era democrata, de família irlandesa, pacifista por princípio, mas devia proteger o território e a livre escolha do burguês americano; o cinema era caro e para as massas, mas tinha que valorizar a luta e a capacidade do povo do país; a música era de senhores, mas devia representar as aspirações dos jovens livres da América; a TV era pra entreter, mas precisava trazer o pai de família como líder inato; a economia ia bem por causa da guerra vencida, mas tinha que estimular o livre mercado; a população havia crescido muito, mas ainda era de lugarejos; os conflitos existiam, mas urgia serem com inteligência e sem violência visível.

E os norte americanos iam crescendo, enriquecendo, liderando e influenciando ao mesmo tempo que se reconheciam e se firmavam pra si mesmos.

A década anterior, a que produziu o Rock'n'Roll (e sua majestade), a que gerou um crescimento populacional nunca visto antes, havia sido aquela em que as coisas continuavam a acontecer por acontecer; os norte americanos, agora ricos e em paz, ainda não tinham uma cultura própria (mesmo o natal misturava elementos germânicos e ingleses); era preciso saber-se norte americano pra discernir-se do outro e investir em si.

Por isso, na década de 1960, buscavam o melhor em si que pudesse ser maior, e alternativo, ao que era dos europeus, sobretudo ingleses.

E foi também a década em que a arte, principalmente a música (a mais popular delas) foi invadida por legiões de ingleses, que começavam a transformar o Rock americano (mistura bem sucedida de elementos do Cowntry e do Folk dos brancos com o Gospel e o Blues dos negros) em produto intelectual e altamente consumível.

O que se via no cinema eram sagas do Velho Oeste transformadas em grandes épicos, personagens da antiguidade clássica que enfatizavam a luta contra o poder estatal autoritário, fatos cotidianos para reflexão (bem ao gosto europeu) contados de modo cômico e leve para o público dos Estados Unidos.

Na TV, a família ideal de classe média ("Papai sabe tudo") abria espaço para "Route 66", série em que dois protagonistas masculinos se aventuravam pelas estradas do país; sem muitos, objetivos descobriam todo um território e uma imensa população ainda fora dos noticiários e das artes.


BOB DYLAN

Nesse mundo novo, surgiu  Robert Allen Zimmerman que viria a ajudar os Estados Unidos a redescobrirem a sua própria poética, música e paisagem.

Também foi ouvinte do Rockabilly, mas foi o Folk aprendido no Estado de Minnesota que o levou a todos os cantos de seu país e em alguns da Europa.

Neto de imigrantes judeus russos, aos dez anos já escrevia seus primeiros poemas e, mais tarde, sozinho, aprendeu piano e guitarra. Até os dias de hoje insiste em ser e mostrar muitas facetas nas artes: pintando, escrevendo e compondo para cinema.

Na música, como todo bom garoto daquele tempo, começou em um grupo que tocava o novo e empolgante som de Little Richard e outros artistas negros que chacoalhavam o corpo do norte americano na década de 1950.

Contudo, em 1959, abraçou o violão e o Folk e soprou numa gaita a voz da América esquecida. Ao conhecer a música de de Woody Guthrie, epifanicamente, decidiu que trilharia o mesmo caminho artístico.

Nascido seis anos depois do Rei, Elvis Presley, tenho pra mim que, apesar de toda a Música Pop dos anos sessenta ter Elvis como princípio estimulador, Bob Dylan é que seria o real fundador do pensamento amplo e crítico que o Rock adotou depois dele.

Sim, Elvis (por causa de Little Richard e Chuck Berry) fez a massa (corporal) dançar, junto com John Lennon, ‎Brian Wilson, Raul Seixas, Mutantes e tantos outros; mas foi Dylan quem fez a massa (encefálica) pensar, a começar pelos próprios Beatles, que modificaram radicalmente o som e o comportamento depois de um encontro com Bob em Nova Iorque. O mais inusitado nisso tudo é que até Bob Dylan se reinventou mais tarde ao ouvir e ver o que os Beatles e os demais artistas pop faziam depois de assimilar o que ele mesmo havia proposto como conceito; e esta roda evolutiva ainda não parou de girar.

Depois de abandonar a universidade, Dylan foi pra Nova Iorque em 1961 a fim de se dedicar a música. Já, desde esse tempo, não queria se expressar de outro modo que não fosse através do Folk e não gostaria de cantar outra coisa que não fosse crítica social. Tocou em bares da cidade e ganhou notoriedade por causa de uma resenha de  Robert Shelton que exaltava seu estilo, novo e próprio. Logo depois assinou contrato como músico de produção com a Colúmbia, onde, em 1962, conseguiu a chance de gravar seu primeiro disco, "Bob Dylan", com clássicos do Folk, do Blues e do Gospel e com duas de suas composições:  "Song to Woody" e "Talkin' New York". O disco não foi bem de vendas, mas seu produtor, John H. Hammond, e seu amigo de estúdio e palco, Johnny Cash, o defenderam perante a gravadora e o público, o que possibilitou que continuasse a gravar e a fazer shows.

Ao modificar, legalmente, seu nome para Robert Dylan, em 1962, e assinar o gerenciamento de sua carreira com  Albert Grossman, o compositor deu passos largos em direção ao sucesso; a tacada final foi a primeira turnê pelo Reino Unido entre o fim de 1962 e o início de 1963. Essas acertadas ações eram o que faltava para alavancar sua carreira, que iniciaria mesmo a partir do segundo álbum, "The Freewheelin' Bob Dylan" (1963), só com canções próprias e com temas sociais, incluindo "Blowin' in the Wind", mostrada pela primeira na vez na BBC em Londres e que abriu os olhos do público e da crítica pra o que ele fazia: com nada mais que um violão, uma gaita e a própria voz, ousava criticar a sociedade existente em meados dos anos 1960.

A forma era simples, um homem e o que podia carregar, mas o conteúdo (tema, poema e melodia) era tão complexo, que uma única canção era o suficiente pra um longo tempo de reflexão. Com Bob Dylan (ao contrário do que ocorria com Elvis), o famoso 'quero mais dez iguais a essa' não funcionaria, já que, na primeira, o pensamento crítico do ouvinte já pediria um tempo. Com Bob Dylan (ao contrário do que acontecia com os Beatles no princípio), o que funcionaria, caso já existissem gravadoras acostumadas com músicos intelectuais, seria o seguinte: 'mais dessas, só daqui dois ou três anos, por favor!'.

Mas, como acontece com a maioria dos filhos de Abraão, trabalho intelectual e ânsia por sucesso não faltavam ao novo representante da música americana, Bob Dylan; às vezes, chegava a gravar até dois LPs num único ano; os hiatos de dois anos eram bem poucos até os anos 1990, quando os espaços entre um novo trabalho e outro passaram a chegar a até três anos, bem natural para um cinquentão na ativa desde os 20 anos.

Bob Dylan enfrentou as décadas seguintes produzindo e influenciando artistas tão distantes de sua realidade e estética, que seria mesmo difícil notar o quão foi importante pro pensamento na música popular: The Beatles, Eric Clapton, Frank Zappa, Pink Floyd são só alguns deles. Mas enfrentar essas décadas também era seguir sendo influenciado, e estes que o ouviam e o reproduziam também foram os que o modificaram nalguns trechos do caminho. Os tempos seguiram por estradas tão sinuosas que até a fórmula de cavaleiro solitário já não cabia mais em Dylan, também se eletrificou e se fez acompanhar por grupos de músicos, sem os quais já não poderia mais se apresentar. Depois de 1966, seus antigos fãs o abandonaram acusando-o de traidor de seus próprios princípios: voz, violão e verso. Mas o caipira solitário já estava mesmo morto, e seus fiéis fãs morreram junto com ele. Agora nascia o americano internacionalizado acompanhado de seus bons e competentes amigos, seguidos de outra orla de fiéis fãs, maior e mais inteligente.

O tempo  o atropelou tanto, que Dylan, de judeu não praticante, tornou-se evangélico radical, chegando até a gravar dois discos com temática puramente Gospel. Mas, graças a Deus, estes tempos foram poucos, logo essa busca espiritual, tão comum naquela época, cessaria e ele voltaria a ser o mesmo velho e bom judeu não praticante. Hoje o tempo o forçou ao isolamento, somente como rancheiro recluso, consegue se dedicar ao bom som e ao bom pensamento; o mercado fonográfico não é mais para caras como ele ou qualquer outro que tenha feito os anos 1960.




Depois de 'frustrar' seus ardorosos fãs engajados na luta social e política, ao abandonar o formato acústico e essencialmente Folk pra tocar acompanhado de uma banda eletrificada de Rock e Blues em 1965; depois de sobreviver a um grave acidente de moto que o deixou de resguardo por um bom tempo em 1975, Dylan, artista independente por excelência, dá uma guinada tão aguda na carreira que, sendo seguido por gente insana, poderiam ter dito que ele, não aquele de Liverpool, é quem teria morrido e sido substituído por um sósia, o que faria muito mais sentido, considerando o rumo que deu às suas atitudes.

"Desire" foi o primeiro disco de uma série em que se encontraria um autor mais alinhado com as tradições e os bons costumes do que o de qualquer astro do Rock ou do Pop de seu tempo, até mais que o próprio Elvis, que rebolava no palco e adorava um rabo de saia, apesar de cantar caretices.

A primeira faixa é sim um 'grito' contra o sistema legal e a opinião pública norte americanos, é também uma longuíssima narrativa em dísticos rimados  sem métrica (apesar de ser ainda menor que a antiga "Desolation Row" - Highway 61 Revisited; 1965), quase impossível de ser tocada em estações de rádio da época com blocos de cinco ou seis minutos (ainda hoje são assim) ou ser apresentada em programas de televisão com blocos de dez a quinze minutos (mais da metade do tempo só para sua canção). Mesmo assim, "Hurricane" aconteceu, foi ouvida por muita gente acostumada à velha canção de protesto no repertório de Dylan e comprou o disco novo apostando num artista renovado depois do grave acidente. Estes apostaram certo, houve uma renovação, mas se espantaram com o resultado, seu ídolo agora soava como um branco rico de meia idade, preferindo se ater a inovações técnicas e a recursos estéticos do que a ideologias e a reflexões (o que era a mais absoluta verdade).

Este comprador de "Desire", em 1976, encontrou a mesma "Hurricane", ouvida na íntegra algumas vezes nas rádios e na televisão, abrindo seu novo LP, que contava, resumidamente, um trecho da história do boxeador americano, o que deu título à canção, que foi acusado, injustamente, de homicídio dez anos antes (curiosamente o mesmo ano em que os fãs de Dylan também o julgaram traidor de um movimento estético; agora seria novamente julgado por aqueles que ainda o seguiam?). Bob Dylan escreveu a canção depois de ler a biografia de Rubin Carter, o Hurricane, em que ele conta um pouco de sua trajetória, do sucesso a prisão e condenação, e um pouco da vida no presídio, onde viu sua carreira se desfazer. 

Talvez a feitura da canção e sua escolha pra abrir o disco não tenham sido à toa, talvez já previsse um novo julgamento do público cheio de ranço ao ouvir as novas canções e ao saber das novas ideias e atitudes que o cantor poeta passaria a expressar a partir de então: depois deste disco viriam dois de cunho religioso, um inteiro com canções gospel (Dylan havia se convertido ao cristianismo radical e missionário; só voltaria ao judaísmo na década de 1980, e ao Folk de protesto na de 1990; em 1997, com "Modern Times", alcançou o mesmo sucesso em vendas que este "Desire").

Sim, "Desire vendeu muito bem, era Dylan afinal, e abria com "Hurricane", indignação pura.

Mas não é só isso: o disco, apesar de já indicar maneirismo no protesto, era muito bem feito, bem construído, bem acabado, coisa que Bob Dylan nunca mais deixaria de fazer em qualquer um de seus trabalhos, com ou sem sucesso de público. E o disco também tinha parcerias, coisa inédita ao se tratar de Bob Dylan, e também tinha uma canção de amor feita pra o reconciliamento com sua ex esposa. Então, o público comprou: gostou de "Hurricane" e comprou; gostou de "Hurricane" e gostou do resto, que era bom e estava lá, apesar de pequeno burguês.


Depois da primeira narrativa da obra, vinha "Isis": a segunda (um conto alegórico em primeira pessoa). 
A canção começa contando que o eu-lírico teria se casado com a tal "Isis" em 5 de maio. Se a canção for considerada alegórica, então pode-se tomar "Isis" também como uma figura alegórica fundamentada na mitologia egípcia. Isis, para os egípcios, era a deusa da fertilidade e dos necessitados, também auxiliadora dos poderosos; aquela que surgiu do nada. Era irmã de Osiris, a quem trouxe a vida novamente depois de morto e espalhado pelo Nilo por Seth, ela uniu todas as suas partes espalhadas e lhe deu vida novamente. No Antigo Egito, julho era o mês de Isis, quando o Nilo enchia e fertilizava os campos cultiváveis pra próxima semeadura.

De posse dessa informação pode-se fazer a seguinte analogia: o eu-lírico diz ter se casado com Isis no quinto dia de maio (Osiris), mas logo separou-se dela (morte de Osiris). O eu-lírico é levado pra uma viagem com promessas, feitas por um desconhecido, de ouro e riqueza (descida ao mundo dos mortos); porém as promessas feitas se mostraram infundadas, ao menos para o eu-lírico, pois o objeto valioso que o desconhecido buscava era apenas um corpo, para ele, muito valioso, pois podia ser trocado por dinheiro (aqui há outro indicativo de mitologia egípcia: o tal corpo a ser encontrado estava no interior de uma pirâmide, apesar de ser num cenário gelado de tempestade de neve). O tal desconhecido morreu antes de descer ao interior da pirâmide, e o eu-lírico foi sem ele: havia algo a ser encontrado lá. Contudo o túmulo estava vazio, o que o fez sentir-se enganado, então pegou o corpo do que já havia morrido e o jogou no túmulo vazio. E voltou para "Isis", que o aceitou naturalmente depois de saber que a ida (assim como a volta) do amado também fora natural (o ressurgimento de Osiris).

Posto a perspectiva mitológica, pode-se então analisar a perspectiva cotidiana, já que todo mito leva pro campo alegórico um fato cotidiano. O fato cotidiano aqui seria talvez o afastamento (natural, segundo o eu-lírico) de algo por quê se tem amor e o retorno pra este algo (também, natural, segundo o eu-lírico). Este fato cotidiano poderia ser tanto o casamento propriamente dito de Dylan e Sara, sua primeira esposa, então separados, mas tentando reatar o relacionamento, como também algo relacionado há algum fundamento artístico ou religioso do qual teria se afastado o autor. Artístico, porque deixou a simplicidade primeva por um tipo de música mais complexa; religioso, talvez, porque, a partir de então, abandonaria o tema social, se atendo somente ao religioso, bastante presente nos primeiros trabalhos. Enfim, como qualquer texto alegórico, a subjetividade é difícil de definir com assertividade e exatidão; a única possibilidade é a conjectura. A única possível é: morte e renascimento de algo em alguém (ou de alguém em algo).

A terceira faixa, "Mozambique", nasceu de uma brincadeira entre Dylan e Jacques Levy (primeiro parceiro do disco)  em que competiam para saber quem conhecia mais rimas com "-ique", tarefa nada fácil pra quem se sabe poeta, sobre tudo de língua inglesa.

O resultado, apesar de ter começado de uma brincadeira, não ficou mau, mesmo as rimas encontradas não sendo muitas: é uma das letras mais curtas de Bob Dylan. Numa levada levemente dançante, parece um respiro na carreira toda de angústia do compositor encabeçador de causas sociais e políticas. A letra toda é sobre uma ilha em Moçambique, onde se vai pra relaxar, apreciar belezas e ter romances. Parece que Bob Dylan vai abraçando pouco a pouco a alienação burguesa, tão necessária às vezes à sanidade mental.


Depois do descanso paradisíaco, um bom café pra continuar viagem.


"Desire" Parece ter três partes distintas: a abertura com o protesto de "Hurricane", o descanso relax com a lúdica "Mozambique" e o desassossego lamentoso iniciado com "One More Cup Of Coffee"; a partir desta canção o disco toma um rumo nunca ouvido antes em discos ou apresentações de Dylan: o desconsolo e o desconforto são evidentes e enfáticos em cada uma das canções até o fim do disco.  "One More Cup Of Coffee" (em dueto com a cantora country Emmylou Harris), que é uma obra prima no gênero fundo do poço, descreve em segunda pessoa, como um monólogo sobre alguém pra esse mesmo alguém (técnica cancioneira muito eficaz e largamente usada por Dylan), um personagem desprovido de qualquer esperança ou valor social que pede "One more cup of coffee for the road" (Mais um copo de café pra viagem) pra continuar "To the valley below" (Descendo o vale), ou seja, com o andamento arrastado e batidas pesadas, o eu-lírico mostra que sua vida apenas segue, sem nada que a signifique, por isso o único modo de continuar seria depois de um gole de estimulante químico.

"Your Breath is sweet, your eyes are like
Two jewels in the sky
Your back is straight your hair is smooth
On the pillow where you lie
But I don't sense affection
No gratitude or love
Your loyalty is not me but to the stars above"
(Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Sua respiração é doce seus olhos são como / duas joias no céu / Sua postura é ereta, seu cabelo é macio / no travesseiro onde você repousa, / Mas eu não sinto afeição / nem gratidão ou amor. / Sua lealdade não é para mim, mas para as estrelas do céu)

(...)

"Your sister sees the future
Like your momma and yourself
You've never learned to read or write
There's no books upon your shelf
And your pleasure know no limits
Your voice is like a meadow larks
But your heart is like an ocean
Mysterious and dark."
 (Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Seu pai é um foragido / e um traficante / Ele te ensinou como selecionar  e escolher / e atravessar uma faca / Ele supervisiona seu reino / E assim nenhum estranho se intromete / Sua voz treme e ele reclama / por mais um prato de comida)

Quando você se sentir também descendo o vale, não se esqueça  de pedir um café pra seguir caminho, mas não sem antes colocar "One More Cup Of Coffee" no play em modo repeat.


E segue "Oh, Sister", também com a voz de Emmylou Harris. A canção traz o desconsolo na voz do eu-lírico, que lamenta e pede compaixão à suposta irmã. Parece o primeiro retorno do compositor ao tema cristão da irmandade, onde, por serem iguais sob um Deus pai, hão que se ajudarem pra que não sofram. A impressão que se tem é que Dylan passa da luta por direitos de igualdades para o convencimento espiritual, que é um modo diferente de tentar ter o mesmo: justiça social.

"Oh, sister, when I come to lie in your arms
You should not treat me like a stranger
Our Father would not like the way that you act
And you must realize the dange"
 (Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Oh, irmã quando eu venho deitar em seus braços / Você não deveria me tratar como um estranho / Nosso Pai, não gosta de como você age / E você tem que perceber o perigo)
É a primeira estrofe da canção sem refrão.


"Joey", segundo o próprio compositor, é uma homenagem ao gangster Joey Gallo, morto em 1972, aos 43 anos. Para ele, Gallo , que se recusava a matar inocentes, era pela causa dos negros e protetor da família: quando soube de um ato de violência contra seu irmão mais velho, quis vingá-lo (por isso foi preso), depois protegeu mulher e filhos quando adversários o procuravam (por isso acabou morto), por esses atos, segundo Dylan, devia ser visto como um legítimo homem de princípios.

Assim como "Hurricane", é uma letra longuíssima (11 minutos de canção) onde é narrado o fato que levou Joey a prisão e como foi morto depois de proteger a família. É mais uma vez Bob Dylan se compadecendo de um homem injustiçado: preso por defender seu irmão e morto porque, ao proteger a família, não teve tempo de escapar ou revidar. Mas, ao contrário de "Hurricane", aqui Joey Gallo era sim um gangster conhecido mesmo antes de ser preso ou assassinado; portanto, um fora da lei; contudo como não ser um fora da lei num país que criminaliza sua cultura (o álcool), menospreza sua religião (o catolicismo) e o tem por degenerado por trazer a sexualidade como algo natural?

Mas a canção mais poética do disco, talvez de toda obra de Dylan, é a seguinte: "Romance In Durango". Também contando de personagens perseguidos, narra a história de eu-lírico (não identificado), em primeira pessoa, e "Madalena", que tentam chegar a "Durango". Entre muitas dificuldades, o eu-lirico vai enchendo "Madalena" de esperanças (consequentemente, também o ouvinte) ao imaginar e contar o que lhes esperaria em "Durango": riqueza, festa, descanso e a proteção de Deus. Num Fandango (ritmo de países de colonização espanhola, México inclusive) bem lento, Bob Dylan mostra uma força poética (com imagética alegórica, métrica e rimas) incrível e uma narrativa digna de qualquer grande cineasta. A história de um casal que atravessa o deserto mexicano (depois de serem acusados injustamente de um crime) em busca de um paraíso na Terra; é a história de todos nós. A tragédia no desfecho (tem-se a impressão de que ao menos o eu-lírico teria sido ferido de morte por uma bala de seus perseguidores) colabora com a genialidade do texto: com tom lamentoso, conta suas esperanças; mesmo atingido, incentiva sua companheira a agir rápido e atirar nos perseguidores: ainda a esperança viva. E, mesmo sabendo que talvez não alcancemos qualquer paraíso, sem a esperança (sem a utopia) não é possível atravessar qualquer deserto de problemas quase insolucionáveis.

Apesar da levada um pouco mais agitada de "Romance in Durango", ainda assim, se trata de uma canção triste, se não por se tratar de um Fandango muito lento, pelo menos por causa da trama e pelo tom da narrativa. A faixa seguinte, "Black Diamond Bay", à primeira audição, parece que vai mudar um pouco o rumo dado ao LP até aqui por causa da levada, Cowntry, rápida e dançante, mas não. A letra narra um fato ainda mais trágico do que a de "Romance in Durango". Com cenas recortadas, mais parecendo a descrição de um sonho (anos depois, os vídeo clipes também usariam esses recortes como forma de simular velocidade de acontecimentos), e imagens absurdas, a canção mostra cinco personagens em um hotel de uma fictícia ilha chamada "Black Diamond Bay". Nessa ilha, uma mulher deprimida cruza um homem grego prestes a se enforcar em um dos quartos, enquanto um soldado e um anão disputam um anel em um jogo de cartas no andar de baixo, onde também está o recepcionista do hotel. Até aqui a letra já nos joga no colo um cenário bastante sinistro, mas ainda piora. O recepcionista, mesmo espantado, dá uma corda ao homem grego, que lhe havia pedido e dito que seria pra matar-se no quarto em que se hospedara. Ao ver a disputa no andar de baixo, a moça resolve voltar e procurar o homem grego, que não abre a porta e acaba se enforcando. Nesse mesmo instante, o vulcão da ilha entra em erupção e mata a todos no lugar. Mas essa tragédia a mais não é o bastante para Dylan: num Gran Finale, o eu-lírico se transforma em alguém que vê a notícia da destruição da ilha pela TV e reclama dizendo que é só mais uma má notícia das tantas veiculadas pelo aparelho. Abre uma cerveja e diz que não há por que se importar ou se preocupar, afinal nunca planejou ir pra tal "Black Diamond Bay". Acho que, depois dessa canção, não há mais o que dizer sobre o homem moderno.

Então, a parte pesada do disco, iniciada com "One More Cup Of Coffee", continua, alentada um pouco pelo andamento dançante, mas ainda é sobre a desesperança.

"So I turned it off and went to grab another beer.
Seems like every time you turn around
There's another hard-luck story that you're gonna hear
And there's really nothin' anyone can say
And I never did plan to go anyway
To Black Diamond Bay."
  (Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Então eu desliguei e fui pegar outra cerveja. / Parece que toda vez que você se vira / Há uma outra história de pouca sorte que você vai ouvir / E não há nada realmente que alguém possa dizer / E eu nunca fiz planos de ir, de qualquer maneira, / Para a Baía do Diamante Negro.)

Depois dos desastres alegóricos, pra terminar seu discurso, Bob Dylan resolve revelar o seu em "Sara". Nesta canção se ouve o lamento do autor que tenta entender os porquês de sua amada, "Sara", o ter deixado. Sara Dylan foi a primeira esposa de Bob, de quem estava separado há algum tempo à época da gravação do disco.

O autor vai descrevendo na canção as alegrias vividas pelo casal e pelos filhos, fazendo pausas com um refrão variável em que aparece seu lamento pela separação e os questionamentos a respeito dos motivos, que não sabe. O desfecho é também trágico, mostra a praia linda, relatada no no início, agora maltratada pelo tempo; é também esperançoso, não há indicação de uma impossibilidade de retorno do casal.

Depois de pronta e gravada, Dylan quis que sua musa inspiradora fosse a primeira a ouvir a canção (além daqueles que participaram da composição e gravação). Ao final da audição, ambos se deram um longo abraço que parecia a reconciliação realizada, mas o clima mágico não durou muito: em pouco tempo estariam separados novamente em definitivo.


Agora a reflexão geral a respeito do disco:

1 - Temática = as canções giram em torno do tema da condenação injusta, consequente perseguição e final trágico (o protagonista se dá mal no fim), com exceção de "Isis", "Mozambique" e, em termos, "Sara".

2 - Andamento = o disco todo (incomum na carreira de Dylan até então) traz canções muito lentas e em tom de lamento, com exceção de "Mozambique", "Hurricane" e "Black Diamond Bay" (as duas últimas com narrativas trágicas e desesperançosas).

3 - Contexto = quando da gravação do disco, Dylan havia passado pelo rejeição do público por os 'ter traído' ao começar a gravar e se apresentar com uma banda; Dylan havia sobrevivido a um acidente grave de moto e, por isso, passou muito tempo em resguardo; Dylan havia passado por uma separação traumática de sua esposa, da qual não entendia o motivo.

4 - Rumo tomado a partir de então = depois de "Desire", Bob Dylan gravaria dois discos ao vivo e um LP de estúdio antes de abraçar a cristianismo radical e gravar dois discos enfatizando a temática religiosa e um terceiro em que passaria a tocar menos no assunto. Só depois é que voltaria a se aproximar novamente do judaísmo e da temática social.

A partir disso pode-se dizer que "Desire" é um disco fúnebre, em que Dylan parece querer enterrar a si mesmo, ou àquilo que nele parece não ter mais vida: compromisso social, compromisso com o alternativo e compromisso conjugal. "Desire" era o canto fúnebre para o Dylan contestador e pai de família.

Mas, ainda bem, que a fase messiânica passou logo!


Em resumo, Bob Dylan influenciou uma larga gama de compositores de Música Pop ao mostrar que é muito possível ser popular e intelectual ao mesmo tempo; Bob Dylan acabou, da mesma forma, influenciado por aqueles que influenciou, tanto que aderiu à guitarra elétrica e ao acompanhamento de uma banda; Bob Dylan, durante toda sua carreira, mostrou que só pode ser fiel, como artista, ao surpreendente (quando a música pop era elétrica, ousou ser somente ele e seu violão; quando esperavam isso dele, se eletrificou; quando o amavam por ser contestador, virou cristão fervoroso; quando viam nele o tradicionalismo, passou a experimentar as novas ondas; quando achavam que ele mostraria um novo caminho para a Música Pop, voltou a gravar Folk). Enfim, Bob Dylan nunca, na verdade, deixou de ser contestador e alternativo, cada rumo tomado era na verdade uma contestação tão radical que feria até mesmo os caminhos por ele mesmo trilhados e aqueles que o haviam amado por tais caminhos; quem amou a mudança nele o amou sempre.



REFERÊNCIAS




BOB DYLAN




DESIRE




CRÍTICA (Desire)








* É muito difícil achar material em vídeo da obra de Bob Dylan disponível gratuitamente, e não é diferente com as canções de "Desire", por isso, nesta resenha, só foi possível colocar link para as canções separadamente em cada faixa, sendo  uma cover, "Black Diamond Bay", e as demais de sites variados.