Mostrando postagens com marcador ACHO QUE COMEÇOU EM 76. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ACHO QUE COMEÇOU EM 76. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Technical Ecstasy

                                                                     O PRINCÍPIO DO FIM





Considerada a banda que deu vida ao Metal, Black Sabbath havia gravado seu primeiro LP, homônimo, em 1970, disco conceitualmente diferente de tudo que já se havia visto e ouvido na música. O LP abre, arrebentando, com a faixa que dá nome ao disco e à banda, e que daria um rumo ao quarteto britânico e a um novo modo de fazer Rock a partir de então: o Heavy Metal.

Black Sabbath, a canção, foi composta pelo baixista, e principal letrista, Geezer Butler, fã incondicional de romances de terror e de magia negra, depois de assistir a um sucesso Cult italiano do gênero chamado "I Tre Volti Della Paura" (As Três Máscaras do Terror) de 1963, exibido com o nome de "Black Sabbath" na Inglaterra e nos Estados Unidos, contando a história de alguém que visitado por Satã (N.I.B., a quarta faixa do mesmo disco, conta a mesma história na versão próprio diabo). Segundo os membros do grupo ela foi inspirada numa experiência real do baixista, que teria visto, em seu quarto, uma figura negra, que despareceu, assim como surgiu, desaparecendo também com um livro de magia negra que Ozzy teria dado ao compositor. História promocional ou não, o fato é que a canção estreou tudo que viria depois, influenciando o Rock britânico, e mundial, tanto ou mais do que os Beatles fizeram na década anterior.

A temática do mal sempre havia feito parte das canções de Rock, a possibilidade de um encontro com o diabo sempre rondara as composições artísticas de todos os tempos, mas ninguém, ainda, havia conseguido registrar de maneira tão eficiente, simples e popular as simbologias do satânico, aliando referencialmente o dito na letra com o clima sugerido pela harmonização dos instrumentos, estrutura musical e  modo de cantar a melodia. Depois de sons de trovoada e chuva forte, com batidas pesadas e andamento extremamente lento (auxilado pelo trítono do diabo), a canção consegue levar qualquer pessoa para o plano do terror e do medo mais profundo, mesmo que não entenda uma só palavra do que diz a letra, somente com o que sugere a música em si. Ela é terrificante sem precisar da explicação, do logos contido no poema.

A canção de abertura de "Black Sabbath" abre também a carreira da banda, pautada na temática do oculto e da maldade humana e social; e abre também as portas do Rock para o Metal Pesado, de onde nasceriam, depois, as bandas mais cultuadas do gênero consequente do que ela criou sob as bigornas de Birmingham.

O disco foi sucesso, de público e de crítica, assim como o segundo, "Paranoid", ainda em 1970; assim como o terceiro, "Master of Reality", no ano seguinte; assim como o quarto, "Vol. 4" e o genial "Sabbath Bloody Sabbath" de 1973. Após um hiato de dois anos, em 1975, lançaram "Sabotage", tipo de álbum que separa ouvintes radicais em dois: os que o amaram e os que o odiaram, principalmente por se ter a impressão de um certo cansaço do grupo consigo mesmo; as canções parecem não seguir uma linha conexa de tema ou de estrutura, dando a entender que havia uma pretensão de seguir novas influências: no caso, o Rock Progressivo, incrivelmente, aquele que surgiu por influência do próprio Sabbath; fato este que se mostrou verdadeiro nos próximos álbuns em que, inclusive, os sintetizadores tomaram espaço cada vez maior na composição das canções; o que poria fim também no Black Sabbath original e clássico: o quarteto, do Rock pesado e sujo, falando do mal, do medo e do oculto.




Black Sabbath

                                                               (A banda)


Todos os integrantes eram de Birmingham, segunda maior cidade do Reino Unido e importante polo industrial da Europa, e filhos de trabalhadores de Classe Média. Começaram a tocar juntos, em 1966, depois que Iommi e  Ward leram, num anúncio, que alguém procurava músicos para formar uma banda; este alguém era John "Ozzy" Osbourne, antigo conhecido de escola de Iommi. Acrescentados, depois, o baixista, Geezer Butler, e o saxofonista, Aker Clarke, decidiram chamar a si próprios de Polka Tulk Blues Band, construindo um reportório de Blues e Rock Clássico. Com a saída de Clarke, decidiram mudar o nome para Earth, mais curto e mais impactante. Porém esse nome não durou muito, pois descobriram que já havia uma outra banda com esse mesmo nome; foi, então, que surgiu Black Sabbath, por sugestão Butler, que já trabalhava na composição da canção homônima.

Já era 1969, e o som da banda mudava rapidamente para o que conhecemos hoje como aquilo que soa como Black Sabbath (clássico), com a gravação de singles que abriram muitas portas e espaços pro grupo, de pubs famosos a estúdios conceituados. O primeiro álbum, também chamado Black Sabbath, veio em 1970, gravado em um único dia. Sobre isso, Tony Iommi diria: "Entramos no estúdio e fizemos tudo num dia só: tocamos nosso repertório daquele tempo e pronto. Achamos até que um dia era tempo demais [para gravar um disco], então viajamos no dia seguinte para tocar na Suíça por um cachê de 20 libras". Além disso, a mixagem do disco também não foi das melhores, mas isso não afetou o sucesso que a novidade intrínseca na obra poderia alcançar: o público e a crítica logo notou que algo novo, e bom, surgia naquele LP com oito músicas pesadas e obscuras. E estavam certos, o álbum "Black Sabbath" pode ser considerado tão influente no Rock quanto "Sgt. Pepper's" dos Beatles, ou mais, afinal, do primeiro álbum de Black Sabbath, surgiu, não só a carreira do próprio grupo, como também a de muitos outros.

Depois do sucesso dos primeiros discos, a banda começou a dar os primeiros sinais de esgotamento já em 1975,  quando do lançamento se "Sabotage", álbum em que a banda passou a experimentar novas sonoridades e estruturas musicais, muito influenciadas pelos mesmo que haviam se influenciados com eles: os grupos de Rock Progressivo e Hard Rock, muitas das faixas chegam a soar muito mais Led Zeppelin que o próprio Led Zeppelin. A formação clássica (Iommi, Ozzy, Butler e Ward) duraria só até 1978, com a gravação de "Never Say Die!"; Ozzy já havia saído em 1977, depois dos shows de "Technical Ecstasy", mas voltou pra gravar os vocais de outro álbum porque o grupo não consegui achar outro que o substituísse. Ozzy, porém, apenas gravou o disco e logo se retirou novamente, não fez um show sequer de promoção. Ozzy, como qualquer grande astro do Rock, também teve seus problemas com excesso de drogas e sexo, além de problemas pessoais, como a morte do pai e o divórcio da primeira esposa. Dos excessos todos, Ozzy se defendeu dizendo que era vítima de perseguição, pois o grupo todo (e todos os grupos) faziam o mesmo, e na mesma quantidade. Contudo, Ozzy, no Black Sabbath, era o único que obrigava o grupo a cancelar shows, ou se apresentar sem o vocalista, simplesmente porque o tal estava em estado de torpor tão deplorável, que não era capaz de se levantar da cama.

Depois da saída de Ozzy, os demais integrantes também saíram e voltaram infinitas vezes, exceto Tony Iommi, o verdadeiro Front Man do grupo; ele, inclusive, se apresentava a frente e no centro do palco, com o vocalista posicionado na lateral, formação nem um pouco usual para uma banda de Rock. A sonoridade de Black Sabbath também tomou um rumo muito diverso daquele que o projetou para o grande público, se aproximando, no início, do Rock Progressivo e, depois, do Hard Rock soando como o Glam Metal de Iron Maiden, banda também influenciada por Black Sabbath: seu nome, inclusive, deriva de um dos clássicos do Sabbath, "Iron Man".

Black Sabbath só retomaria a sonoridade e a formação clássica (mas sem o baterista original) em 2013, com uma turnê internacional e a gravação de inéditas, no derradeiro disco da banda: "13".




Technical Ecstasy

                                                              (White Album)




Deu branco. Assim como os maiores ídolos de Ozzy, The Beatles, Black Sabbath também teve sua fase crítica, iniciada na salada mista chamada "Sabotage", com clímax em "Technical Ecstasy" e desfecho trágico com "Never Say Die!".

O grupo fora genial desde o primeiro disco, sendo inovador e principiador em tudo, e segurou a onda sempre, até que grupos influenciados por ele, mas com pegadas diferentes, passaram a ser também seus concorrentes. Desde "Sabotage" o quarteto nem mesmo era mais quarteto: com a inserção de Gerald Woodruffe nos teclados, um quinto elemento surgia mudando a cara do som e o som dos caras, cada vez mais próximo do Hard Rock e do Progressivo. Assim, o Black Sabbath se tornava mais técnica e menos performática, o que acabaria por diminuir a importância de Ozzy, algo que ele sentiu e reclamou ao desabafar que os solos de Iommi mais pareciam parte de um grupo de Jazz, não de Rock.

A crise, em 1975 e 1976, também era econômica: os membros do grupo passavam por dificuldades financeiras, tendo gastado mais do que recebiam - o que, aliás, era fato corriqueiro em qualquer parte do globo em meados dos anos 1970. O uso e o abuso de drogas ilegais também fez parte do cotidiano deste grupo de sucesso - outro fato corriqueiro no mundo do Rock desde meados dos anos 1960 -, e, com isso: as diferenças postas em cheque, a incapacidade de compromisso e de organização exacerbadas, sendo o mais prejudicador Ozzy Osbourne (em constantes discussões com Tony Iommi e comuns faltas e atrasos a shows contratados) o começo do fim da banda se mostrava aparente.

Assim como os Beatles, o Black Sabbath também hasteou sua bandeira de rendição ao publicar um álbum branco em meio a crise, com esperança de melhora (It's All Right), mas em claro desacordo geral entre os integrantes; logo depois das turnês do álbum, Ozzy avisou que não voltaria mais a compor ou se apresentar com o Sabbath; mas, não tendo achado outro vocalista que o contentasse, Iommi pediu que Ozzy ao menos gravasse os vocais de "Never Say Die!"; Ozzy atendeu ao pedido e voltou a sair do grupo logo que terminadas as gravações. Era fim quase definitivo da formação clássica de Black Sabbath.

O álbum branco da banda mais dark da primeira metade dos anos 1970 era uma pá de cal no que representava o obscuro, o oculto, o medo, o terror, a guerra, a discórdia e o mal presente (e escondido) no homem, cantados nas letras divinas de Black Sabbath.

A grande diferença entre o Branco dos Beatles e o Branco do Sabbath é o resultado final: o quarteto de Liverpool deu o máximo de si, apesar das divergências, e publicou seu álbum mais icônico; o quarteto de Birmingham não se esmerou tanto nas composições, apesar da esperança, e publicou um dos álbuns mais desprezados pelos fãs.


Abrindo com "Back Street Kids", o Black Sabbath tenta dar a impressão, num Rock'n'Roll bom, mas leve (para os padrões Sabbath), quase dançante até, de que nada pode desintegrar a integridade do som e do espírito de quem cresceu com os garotos da rua de trás, alegoria muito usada por quem pretende se dizer do contra, à margem do usual, comportado e oficial. Porém não é exatamente o que canção mostra, nem o restante do disco, como veremos a seguir. A música soa mais Pop do que Rock, não fosse Black Sabbath, talvez não fosse respeitada por qualquer ouvinte sério de Hard e Metal; por isso, parece clara a intenção do grupo de se adequar aos novos tempos 'Brights' que viriam dali por diante.

Há uma desconformação entre letra e música, com a primeira dizendo que "Nobody I know will ever take my Rock'n'Roll away from me" (Ninguém que eu conheça vai levar meu Rock'n'Roll de mim) e a segunda querendo que o ouvinte balance os quadris e os ombros como só a melhor música Pop pretende e consegue; música pra colocar qualquer um nas rádios.

Na seguinte, "You Won't Change Me", o som lembra o desespero e o terror dos primeiros anos de Sabbath, mas com o mesmo tema de "Back Street Kids": "I am what I am / Nobody will ever change my ways". Nesta canção, o que se diz e o que se ouve se encaixam com maior coerência, porém ainda há aquela pequena dose de lamentação, no modo de cantar e no arranjo dos instrumentistas, que ainda deixam de confirmar fé plena no que se pretende expressar. Depois de declarar a máxima rebelde juvenil do Rock'n'Roll: não preciso de dinheiro e vivo o dia de hoje, o andamento pesado alivia um pouco e dá lugar a uma levada mais branda, onde o eu-lírico tenciona deixar de se lamentar para ouvir seu interlocutor, mesmo sabendo que isso não vai mudar em nada seu jeito. Mas, como já dito aqui antes, não é o que a evolução do disco vai mostrando, desde a letra até a instrumentação, com aquela deixando a obscuridade de lado e tratando de temas mais cotidianos e terrenos e esta deixando-se levar por influências do novo Hard Rock que surgia naquele tempo.

Há, na canção, também, referência muito transparente aos Beatles ao se notar inserido na letra um verso que também lembra a de uma das mais famosas do quarteto de Liverpool: "Nobody's gonna change my world" (Nothing's gonna change my world, Across The Universe), juntamente com uma guinada na música que a faz soar muito como as velhas canções do grupo extinto em 1970. Há que se dizer aqui que, ao menos Ozzy (ou o único a confessar) admirava os Beatles como quem admira a um Deus. Mais uma razão pra desconfiar-se que talvez esse disco seja mesmo o "White Album" de Black Sabbath anunciando seu fim no meio de uma convivência arrastada e conturbada.

Ainda na mesma onda: não presto, mas vou continuar assim, "It's Alright" vem ainda mais cristalina que as anteriores, e ainda mais Beatles que estas também, tanto na letra, que soa esperançosa (novidade no Black Sabbath), como na toada, que, se alguém dissesse ser uma esquecida nos arquivos da Apple, qualquer um acreditaria; soa tanto como Beatles, que foi cantada inclusive pelo baterista,  Bill Ward, como fosse uma dissonante na obra completa da banda, assim como era quando Ringo Starr era colocado pra cantar.

A canção começa e termina com o eu-lírico explicando que, apesar de estarem a procura de iniquidades, nunca encontrão, por isso a certeza de que tudo está bem:


"Told you once about your friends and neighbours
They were always seeking but they'll never find it
It's alright, cuz it's alright"

(Black Sabbath - Technical Ecstasy - Criteria
Studios: Miami; EUA, 1976)


É preciso também relembrar que os integrantes, neste período, enfrentavam graves problemas financeiros e pessoais; portanto, esse mantra esperançoso servia também como um bom conselho para o músicos do grupo principalmente.

"Gypsy", a quarta canção do disco, volta à temática do oculto, mas ainda se parece muito com o que faziam outras bandas de meados dos anos 1970; o som lembra muito o Hard Rock de Led Zeppelin e The Who, assim como o modo de cantar a musa, endeusada e empoderada, diante de um súdito fraco e vacilante. O arranjo também flerta com o Art Rock ao incluir um piano tocado à moda Supertrump, com direito a backing vocals feminilizantes. Se fosse uma tentativa de popularizar o ocultismo numa música leve e palatável, pode ser que tenha funcionado, mas se foi somente um modo de falar sobre mais do mesmo, mas com uma nova roupagem, pessoalmente, me parece uma bobagem do princípio ao fim.

Uma das letras mais intrigantes e uma das músicas mais empolgantes do disco, "All Moving Parts (Stand Still)" lembra mais o Heavy Metal do Sabbath que as anteriores, com letra difícil de decifrar e levada pesada. Mesmo assim, a inclusão dos teclados e as muitas viradas no decorrer da canção não deixam dúvidas sobre o quanto os caras de Birmingham queriam soar modernos como seus herdeiros no Hard Rock.

A letra traz o sentimento de alguém derrotado por aquele contra quem batalhava, talvez alguém representando o poder da guerra, onde o mais forte e mais violento é que vence. Sabendo-se que Ozzy e seus companheiros eram continuadores do pacifismo dos anos 1960, apesar de serem do Metal, pode ser uma boa dica de início pra encontrar a ponta desse novelo a ser desenrolado; principalmente se considerar-se que os vencedores, os Estados Unidos da América do Norte, se auto intitulavam salvadores do mundo e propagadores da paz e da liberdade.


"And he's saying all men should all be free
What a combination, peace and radiation
And he's saying free men should fight for me
Just like his momma, he seems to get his pleasure from pain
And the rain, ain't that strange? Very strange?"


(Black Sabbath - Technical Ecstasy - Criteria
Studios: Miami; EUA, 1976)


Assim, pode-se imaginar que o vencedor, aqui repudiado, pudesse ser aquele que, com ajuda da irradiação (bomba H), conquistou a paz e levou a liberdade àqueles que temiam sua ira.

Voltando ao início do disco, o Rock, além de servir como base de rebeldia e âncora de segurança, agora também é cantado como remédio certo e urgente pra quem não aguenta mais ouvir falar das voltas que o mundo dá:


"Well i'm sick and tired of hearing 'bout the world and its hang ups
Gonna get myself together,
Take a ride downtown
Gotta see my rock 'n' roll doctor
Gotta see my rock 'n' roll doctor
Gotta see my rock 'n' roll doctor
Gotta see him, see him today
He's gonna blow me away"


(Black Sabbath - Technical Ecstasy - Criteria
Studios: Miami; EUA, 1976)


"Rock'n'Roll Doctor" é bom, direto e empolgante, como deve ser qualquer remédio que se preste a acabar com o tédio cotidiano. Se você não procura reflexões e foge de problemas, esse respiro no lamaçal da maldade humana, de Black Sabbath, é uma boa pedida pra noite toda.

 "She's Gone". Letra composta por Ozzy depois de divorciar-se de sua primeira esposa, é lenta, dramática e pesada. Apesar de soar como balada, talvez seja a canção do disco que mais se aproxime do que havia sido antes o Black Sabbath: banda com temática obscura e sem finais esperançosos, justamente o oposto do que se ouviu até a canção sexta da obra.

A letra fala do lamento no fim de um relacionamento, e a interpretação de Ozzy é tão autentica e sincera, que o drama descrito se torna peso pra canção, o que faz o ouvinte retornar ao clima de ocultismo presente nos primeiro LPs da banda. É uma interpretação emocionante e imperdível.

"Technical Ecstasy" termina com chave de ouro. Apesar da letra ainda ser sobre o cotidiano do homem comum num lugar qualquer e a música também partir da influência do Progressivo e do Hard Rock, "Dirty Women"  é muito boa e bem feita; tanto, que foi presença obrigatória nos shows da banda, com ou sem Ozzy.

É sobre um homem que, ao buscar prazer, e sem ter com quem, mesmo sabendo que seria uma desvantagem e não uma vitória, se submete à conquista rápida e eficiente comprando uma prostituta que lhe sirva.

Tanto a letra quanto a música são indicações do que se tornaria o Black Sabbath no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, banda de primorosa atuação técnica cantando sobre angústias mais humanas.

"Technical Ecstasy", o começo do fim de uma formação e sonoridade clássicas, iniciou tentando dizer que nada mudaria o Rock'n'Roll do Black Sabbath, ou o próprio Black Sabbath, mas não conseguiu manter sua promessa nem mesmo até a última faixa do LP, e, ao contrário, provou que tudo tem mesmo um fim, sobretudo aquele ou aquilo que encabeçou uma virada nos rumos estéticos e/ou ideológicos de qualquer movimento. O Hard Rock virou Heavy Metal depois de Black Sabbath e o Black Sabbath virou lenda depois do Heavy Metal: nunca mais Black Sabbath, nunca mais Heavy Metal, e vice-versa.



















REFERÊNCIAS


Site

Black Sabbath


Crítica

(Black Sabbath)

Collectorsroom
Plano Crítico
Na Mira do Groove
Aumenta que isso é Rock'n'Roll
O Globo
Whiplash (13)


(Technical Ecstasy)

Whiplash
El Portal Del metal
Metallizeo
Mundo Controverso


domingo, 25 de dezembro de 2016

DESIRE

* Desire



O pai de todos 

Em 1960, tudo recomeçava na América do Norte: a política (agora de grande Estado), o cinema (agora com épicos americanos), a música (agora com o Rei do Rock), a TV (agora com a família americana), a população (agora geração do baby boom), a economia (agora rica), a guerra (agora fria).

Em 1960, enquanto a Europa dava os primeiros passos depois de se recomporem da Segunda Grande Guerra, enquanto a União Soviética ainda buscava reconhecimento de seus pares do Ocidente, os Estados Unidos queriam se firmar como grande líder, grande pai, grande salvador, grande conservador da paz e da liberdade capitalistas.

No início dos anos 1960, os norte americanos queriam ser globais (orientadores de todos os países), mas sem se perderem enquanto povo e unidade ideal: John Kennedy (presidente de 1961
a 1963) era democrata, de família irlandesa, pacifista por princípio, mas devia proteger o território e a livre escolha do burguês americano; o cinema era caro e para as massas, mas tinha que valorizar a luta e a capacidade do povo do país; a música era de senhores, mas devia representar as aspirações dos jovens livres da América; a TV era pra entreter, mas precisava trazer o pai de família como líder inato; a economia ia bem por causa da guerra vencida, mas tinha que estimular o livre mercado; a população havia crescido muito, mas ainda era de lugarejos; os conflitos existiam, mas urgia serem com inteligência e sem violência visível.

E os norte americanos iam crescendo, enriquecendo, liderando e influenciando ao mesmo tempo que se reconheciam e se firmavam pra si mesmos.

A década anterior, a que produziu o Rock'n'Roll (e sua majestade), a que gerou um crescimento populacional nunca visto antes, havia sido aquela em que as coisas continuavam a acontecer por acontecer; os norte americanos, agora ricos e em paz, ainda não tinham uma cultura própria (mesmo o natal misturava elementos germânicos e ingleses); era preciso saber-se norte americano pra discernir-se do outro e investir em si.

Por isso, na década de 1960, buscavam o melhor em si que pudesse ser maior, e alternativo, ao que era dos europeus, sobretudo ingleses.

E foi também a década em que a arte, principalmente a música (a mais popular delas) foi invadida por legiões de ingleses, que começavam a transformar o Rock americano (mistura bem sucedida de elementos do Cowntry e do Folk dos brancos com o Gospel e o Blues dos negros) em produto intelectual e altamente consumível.

O que se via no cinema eram sagas do Velho Oeste transformadas em grandes épicos, personagens da antiguidade clássica que enfatizavam a luta contra o poder estatal autoritário, fatos cotidianos para reflexão (bem ao gosto europeu) contados de modo cômico e leve para o público dos Estados Unidos.

Na TV, a família ideal de classe média ("Papai sabe tudo") abria espaço para "Route 66", série em que dois protagonistas masculinos se aventuravam pelas estradas do país; sem muitos, objetivos descobriam todo um território e uma imensa população ainda fora dos noticiários e das artes.


BOB DYLAN

Nesse mundo novo, surgiu  Robert Allen Zimmerman que viria a ajudar os Estados Unidos a redescobrirem a sua própria poética, música e paisagem.

Também foi ouvinte do Rockabilly, mas foi o Folk aprendido no Estado de Minnesota que o levou a todos os cantos de seu país e em alguns da Europa.

Neto de imigrantes judeus russos, aos dez anos já escrevia seus primeiros poemas e, mais tarde, sozinho, aprendeu piano e guitarra. Até os dias de hoje insiste em ser e mostrar muitas facetas nas artes: pintando, escrevendo e compondo para cinema.

Na música, como todo bom garoto daquele tempo, começou em um grupo que tocava o novo e empolgante som de Little Richard e outros artistas negros que chacoalhavam o corpo do norte americano na década de 1950.

Contudo, em 1959, abraçou o violão e o Folk e soprou numa gaita a voz da América esquecida. Ao conhecer a música de de Woody Guthrie, epifanicamente, decidiu que trilharia o mesmo caminho artístico.

Nascido seis anos depois do Rei, Elvis Presley, tenho pra mim que, apesar de toda a Música Pop dos anos sessenta ter Elvis como princípio estimulador, Bob Dylan é que seria o real fundador do pensamento amplo e crítico que o Rock adotou depois dele.

Sim, Elvis (por causa de Little Richard e Chuck Berry) fez a massa (corporal) dançar, junto com John Lennon, ‎Brian Wilson, Raul Seixas, Mutantes e tantos outros; mas foi Dylan quem fez a massa (encefálica) pensar, a começar pelos próprios Beatles, que modificaram radicalmente o som e o comportamento depois de um encontro com Bob em Nova Iorque. O mais inusitado nisso tudo é que até Bob Dylan se reinventou mais tarde ao ouvir e ver o que os Beatles e os demais artistas pop faziam depois de assimilar o que ele mesmo havia proposto como conceito; e esta roda evolutiva ainda não parou de girar.

Depois de abandonar a universidade, Dylan foi pra Nova Iorque em 1961 a fim de se dedicar a música. Já, desde esse tempo, não queria se expressar de outro modo que não fosse através do Folk e não gostaria de cantar outra coisa que não fosse crítica social. Tocou em bares da cidade e ganhou notoriedade por causa de uma resenha de  Robert Shelton que exaltava seu estilo, novo e próprio. Logo depois assinou contrato como músico de produção com a Colúmbia, onde, em 1962, conseguiu a chance de gravar seu primeiro disco, "Bob Dylan", com clássicos do Folk, do Blues e do Gospel e com duas de suas composições:  "Song to Woody" e "Talkin' New York". O disco não foi bem de vendas, mas seu produtor, John H. Hammond, e seu amigo de estúdio e palco, Johnny Cash, o defenderam perante a gravadora e o público, o que possibilitou que continuasse a gravar e a fazer shows.

Ao modificar, legalmente, seu nome para Robert Dylan, em 1962, e assinar o gerenciamento de sua carreira com  Albert Grossman, o compositor deu passos largos em direção ao sucesso; a tacada final foi a primeira turnê pelo Reino Unido entre o fim de 1962 e o início de 1963. Essas acertadas ações eram o que faltava para alavancar sua carreira, que iniciaria mesmo a partir do segundo álbum, "The Freewheelin' Bob Dylan" (1963), só com canções próprias e com temas sociais, incluindo "Blowin' in the Wind", mostrada pela primeira na vez na BBC em Londres e que abriu os olhos do público e da crítica pra o que ele fazia: com nada mais que um violão, uma gaita e a própria voz, ousava criticar a sociedade existente em meados dos anos 1960.

A forma era simples, um homem e o que podia carregar, mas o conteúdo (tema, poema e melodia) era tão complexo, que uma única canção era o suficiente pra um longo tempo de reflexão. Com Bob Dylan (ao contrário do que ocorria com Elvis), o famoso 'quero mais dez iguais a essa' não funcionaria, já que, na primeira, o pensamento crítico do ouvinte já pediria um tempo. Com Bob Dylan (ao contrário do que acontecia com os Beatles no princípio), o que funcionaria, caso já existissem gravadoras acostumadas com músicos intelectuais, seria o seguinte: 'mais dessas, só daqui dois ou três anos, por favor!'.

Mas, como acontece com a maioria dos filhos de Abraão, trabalho intelectual e ânsia por sucesso não faltavam ao novo representante da música americana, Bob Dylan; às vezes, chegava a gravar até dois LPs num único ano; os hiatos de dois anos eram bem poucos até os anos 1990, quando os espaços entre um novo trabalho e outro passaram a chegar a até três anos, bem natural para um cinquentão na ativa desde os 20 anos.

Bob Dylan enfrentou as décadas seguintes produzindo e influenciando artistas tão distantes de sua realidade e estética, que seria mesmo difícil notar o quão foi importante pro pensamento na música popular: The Beatles, Eric Clapton, Frank Zappa, Pink Floyd são só alguns deles. Mas enfrentar essas décadas também era seguir sendo influenciado, e estes que o ouviam e o reproduziam também foram os que o modificaram nalguns trechos do caminho. Os tempos seguiram por estradas tão sinuosas que até a fórmula de cavaleiro solitário já não cabia mais em Dylan, também se eletrificou e se fez acompanhar por grupos de músicos, sem os quais já não poderia mais se apresentar. Depois de 1966, seus antigos fãs o abandonaram acusando-o de traidor de seus próprios princípios: voz, violão e verso. Mas o caipira solitário já estava mesmo morto, e seus fiéis fãs morreram junto com ele. Agora nascia o americano internacionalizado acompanhado de seus bons e competentes amigos, seguidos de outra orla de fiéis fãs, maior e mais inteligente.

O tempo  o atropelou tanto, que Dylan, de judeu não praticante, tornou-se evangélico radical, chegando até a gravar dois discos com temática puramente Gospel. Mas, graças a Deus, estes tempos foram poucos, logo essa busca espiritual, tão comum naquela época, cessaria e ele voltaria a ser o mesmo velho e bom judeu não praticante. Hoje o tempo o forçou ao isolamento, somente como rancheiro recluso, consegue se dedicar ao bom som e ao bom pensamento; o mercado fonográfico não é mais para caras como ele ou qualquer outro que tenha feito os anos 1960.




Depois de 'frustrar' seus ardorosos fãs engajados na luta social e política, ao abandonar o formato acústico e essencialmente Folk pra tocar acompanhado de uma banda eletrificada de Rock e Blues em 1965; depois de sobreviver a um grave acidente de moto que o deixou de resguardo por um bom tempo em 1975, Dylan, artista independente por excelência, dá uma guinada tão aguda na carreira que, sendo seguido por gente insana, poderiam ter dito que ele, não aquele de Liverpool, é quem teria morrido e sido substituído por um sósia, o que faria muito mais sentido, considerando o rumo que deu às suas atitudes.

"Desire" foi o primeiro disco de uma série em que se encontraria um autor mais alinhado com as tradições e os bons costumes do que o de qualquer astro do Rock ou do Pop de seu tempo, até mais que o próprio Elvis, que rebolava no palco e adorava um rabo de saia, apesar de cantar caretices.

A primeira faixa é sim um 'grito' contra o sistema legal e a opinião pública norte americanos, é também uma longuíssima narrativa em dísticos rimados  sem métrica (apesar de ser ainda menor que a antiga "Desolation Row" - Highway 61 Revisited; 1965), quase impossível de ser tocada em estações de rádio da época com blocos de cinco ou seis minutos (ainda hoje são assim) ou ser apresentada em programas de televisão com blocos de dez a quinze minutos (mais da metade do tempo só para sua canção). Mesmo assim, "Hurricane" aconteceu, foi ouvida por muita gente acostumada à velha canção de protesto no repertório de Dylan e comprou o disco novo apostando num artista renovado depois do grave acidente. Estes apostaram certo, houve uma renovação, mas se espantaram com o resultado, seu ídolo agora soava como um branco rico de meia idade, preferindo se ater a inovações técnicas e a recursos estéticos do que a ideologias e a reflexões (o que era a mais absoluta verdade).

Este comprador de "Desire", em 1976, encontrou a mesma "Hurricane", ouvida na íntegra algumas vezes nas rádios e na televisão, abrindo seu novo LP, que contava, resumidamente, um trecho da história do boxeador americano, o que deu título à canção, que foi acusado, injustamente, de homicídio dez anos antes (curiosamente o mesmo ano em que os fãs de Dylan também o julgaram traidor de um movimento estético; agora seria novamente julgado por aqueles que ainda o seguiam?). Bob Dylan escreveu a canção depois de ler a biografia de Rubin Carter, o Hurricane, em que ele conta um pouco de sua trajetória, do sucesso a prisão e condenação, e um pouco da vida no presídio, onde viu sua carreira se desfazer. 

Talvez a feitura da canção e sua escolha pra abrir o disco não tenham sido à toa, talvez já previsse um novo julgamento do público cheio de ranço ao ouvir as novas canções e ao saber das novas ideias e atitudes que o cantor poeta passaria a expressar a partir de então: depois deste disco viriam dois de cunho religioso, um inteiro com canções gospel (Dylan havia se convertido ao cristianismo radical e missionário; só voltaria ao judaísmo na década de 1980, e ao Folk de protesto na de 1990; em 1997, com "Modern Times", alcançou o mesmo sucesso em vendas que este "Desire").

Sim, "Desire vendeu muito bem, era Dylan afinal, e abria com "Hurricane", indignação pura.

Mas não é só isso: o disco, apesar de já indicar maneirismo no protesto, era muito bem feito, bem construído, bem acabado, coisa que Bob Dylan nunca mais deixaria de fazer em qualquer um de seus trabalhos, com ou sem sucesso de público. E o disco também tinha parcerias, coisa inédita ao se tratar de Bob Dylan, e também tinha uma canção de amor feita pra o reconciliamento com sua ex esposa. Então, o público comprou: gostou de "Hurricane" e comprou; gostou de "Hurricane" e gostou do resto, que era bom e estava lá, apesar de pequeno burguês.


Depois da primeira narrativa da obra, vinha "Isis": a segunda (um conto alegórico em primeira pessoa). 
A canção começa contando que o eu-lírico teria se casado com a tal "Isis" em 5 de maio. Se a canção for considerada alegórica, então pode-se tomar "Isis" também como uma figura alegórica fundamentada na mitologia egípcia. Isis, para os egípcios, era a deusa da fertilidade e dos necessitados, também auxiliadora dos poderosos; aquela que surgiu do nada. Era irmã de Osiris, a quem trouxe a vida novamente depois de morto e espalhado pelo Nilo por Seth, ela uniu todas as suas partes espalhadas e lhe deu vida novamente. No Antigo Egito, julho era o mês de Isis, quando o Nilo enchia e fertilizava os campos cultiváveis pra próxima semeadura.

De posse dessa informação pode-se fazer a seguinte analogia: o eu-lírico diz ter se casado com Isis no quinto dia de maio (Osiris), mas logo separou-se dela (morte de Osiris). O eu-lírico é levado pra uma viagem com promessas, feitas por um desconhecido, de ouro e riqueza (descida ao mundo dos mortos); porém as promessas feitas se mostraram infundadas, ao menos para o eu-lírico, pois o objeto valioso que o desconhecido buscava era apenas um corpo, para ele, muito valioso, pois podia ser trocado por dinheiro (aqui há outro indicativo de mitologia egípcia: o tal corpo a ser encontrado estava no interior de uma pirâmide, apesar de ser num cenário gelado de tempestade de neve). O tal desconhecido morreu antes de descer ao interior da pirâmide, e o eu-lírico foi sem ele: havia algo a ser encontrado lá. Contudo o túmulo estava vazio, o que o fez sentir-se enganado, então pegou o corpo do que já havia morrido e o jogou no túmulo vazio. E voltou para "Isis", que o aceitou naturalmente depois de saber que a ida (assim como a volta) do amado também fora natural (o ressurgimento de Osiris).

Posto a perspectiva mitológica, pode-se então analisar a perspectiva cotidiana, já que todo mito leva pro campo alegórico um fato cotidiano. O fato cotidiano aqui seria talvez o afastamento (natural, segundo o eu-lírico) de algo por quê se tem amor e o retorno pra este algo (também, natural, segundo o eu-lírico). Este fato cotidiano poderia ser tanto o casamento propriamente dito de Dylan e Sara, sua primeira esposa, então separados, mas tentando reatar o relacionamento, como também algo relacionado há algum fundamento artístico ou religioso do qual teria se afastado o autor. Artístico, porque deixou a simplicidade primeva por um tipo de música mais complexa; religioso, talvez, porque, a partir de então, abandonaria o tema social, se atendo somente ao religioso, bastante presente nos primeiros trabalhos. Enfim, como qualquer texto alegórico, a subjetividade é difícil de definir com assertividade e exatidão; a única possibilidade é a conjectura. A única possível é: morte e renascimento de algo em alguém (ou de alguém em algo).

A terceira faixa, "Mozambique", nasceu de uma brincadeira entre Dylan e Jacques Levy (primeiro parceiro do disco)  em que competiam para saber quem conhecia mais rimas com "-ique", tarefa nada fácil pra quem se sabe poeta, sobre tudo de língua inglesa.

O resultado, apesar de ter começado de uma brincadeira, não ficou mau, mesmo as rimas encontradas não sendo muitas: é uma das letras mais curtas de Bob Dylan. Numa levada levemente dançante, parece um respiro na carreira toda de angústia do compositor encabeçador de causas sociais e políticas. A letra toda é sobre uma ilha em Moçambique, onde se vai pra relaxar, apreciar belezas e ter romances. Parece que Bob Dylan vai abraçando pouco a pouco a alienação burguesa, tão necessária às vezes à sanidade mental.


Depois do descanso paradisíaco, um bom café pra continuar viagem.


"Desire" Parece ter três partes distintas: a abertura com o protesto de "Hurricane", o descanso relax com a lúdica "Mozambique" e o desassossego lamentoso iniciado com "One More Cup Of Coffee"; a partir desta canção o disco toma um rumo nunca ouvido antes em discos ou apresentações de Dylan: o desconsolo e o desconforto são evidentes e enfáticos em cada uma das canções até o fim do disco.  "One More Cup Of Coffee" (em dueto com a cantora country Emmylou Harris), que é uma obra prima no gênero fundo do poço, descreve em segunda pessoa, como um monólogo sobre alguém pra esse mesmo alguém (técnica cancioneira muito eficaz e largamente usada por Dylan), um personagem desprovido de qualquer esperança ou valor social que pede "One more cup of coffee for the road" (Mais um copo de café pra viagem) pra continuar "To the valley below" (Descendo o vale), ou seja, com o andamento arrastado e batidas pesadas, o eu-lírico mostra que sua vida apenas segue, sem nada que a signifique, por isso o único modo de continuar seria depois de um gole de estimulante químico.

"Your Breath is sweet, your eyes are like
Two jewels in the sky
Your back is straight your hair is smooth
On the pillow where you lie
But I don't sense affection
No gratitude or love
Your loyalty is not me but to the stars above"
(Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Sua respiração é doce seus olhos são como / duas joias no céu / Sua postura é ereta, seu cabelo é macio / no travesseiro onde você repousa, / Mas eu não sinto afeição / nem gratidão ou amor. / Sua lealdade não é para mim, mas para as estrelas do céu)

(...)

"Your sister sees the future
Like your momma and yourself
You've never learned to read or write
There's no books upon your shelf
And your pleasure know no limits
Your voice is like a meadow larks
But your heart is like an ocean
Mysterious and dark."
 (Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Seu pai é um foragido / e um traficante / Ele te ensinou como selecionar  e escolher / e atravessar uma faca / Ele supervisiona seu reino / E assim nenhum estranho se intromete / Sua voz treme e ele reclama / por mais um prato de comida)

Quando você se sentir também descendo o vale, não se esqueça  de pedir um café pra seguir caminho, mas não sem antes colocar "One More Cup Of Coffee" no play em modo repeat.


E segue "Oh, Sister", também com a voz de Emmylou Harris. A canção traz o desconsolo na voz do eu-lírico, que lamenta e pede compaixão à suposta irmã. Parece o primeiro retorno do compositor ao tema cristão da irmandade, onde, por serem iguais sob um Deus pai, hão que se ajudarem pra que não sofram. A impressão que se tem é que Dylan passa da luta por direitos de igualdades para o convencimento espiritual, que é um modo diferente de tentar ter o mesmo: justiça social.

"Oh, sister, when I come to lie in your arms
You should not treat me like a stranger
Our Father would not like the way that you act
And you must realize the dange"
 (Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Oh, irmã quando eu venho deitar em seus braços / Você não deveria me tratar como um estranho / Nosso Pai, não gosta de como você age / E você tem que perceber o perigo)
É a primeira estrofe da canção sem refrão.


"Joey", segundo o próprio compositor, é uma homenagem ao gangster Joey Gallo, morto em 1972, aos 43 anos. Para ele, Gallo , que se recusava a matar inocentes, era pela causa dos negros e protetor da família: quando soube de um ato de violência contra seu irmão mais velho, quis vingá-lo (por isso foi preso), depois protegeu mulher e filhos quando adversários o procuravam (por isso acabou morto), por esses atos, segundo Dylan, devia ser visto como um legítimo homem de princípios.

Assim como "Hurricane", é uma letra longuíssima (11 minutos de canção) onde é narrado o fato que levou Joey a prisão e como foi morto depois de proteger a família. É mais uma vez Bob Dylan se compadecendo de um homem injustiçado: preso por defender seu irmão e morto porque, ao proteger a família, não teve tempo de escapar ou revidar. Mas, ao contrário de "Hurricane", aqui Joey Gallo era sim um gangster conhecido mesmo antes de ser preso ou assassinado; portanto, um fora da lei; contudo como não ser um fora da lei num país que criminaliza sua cultura (o álcool), menospreza sua religião (o catolicismo) e o tem por degenerado por trazer a sexualidade como algo natural?

Mas a canção mais poética do disco, talvez de toda obra de Dylan, é a seguinte: "Romance In Durango". Também contando de personagens perseguidos, narra a história de eu-lírico (não identificado), em primeira pessoa, e "Madalena", que tentam chegar a "Durango". Entre muitas dificuldades, o eu-lirico vai enchendo "Madalena" de esperanças (consequentemente, também o ouvinte) ao imaginar e contar o que lhes esperaria em "Durango": riqueza, festa, descanso e a proteção de Deus. Num Fandango (ritmo de países de colonização espanhola, México inclusive) bem lento, Bob Dylan mostra uma força poética (com imagética alegórica, métrica e rimas) incrível e uma narrativa digna de qualquer grande cineasta. A história de um casal que atravessa o deserto mexicano (depois de serem acusados injustamente de um crime) em busca de um paraíso na Terra; é a história de todos nós. A tragédia no desfecho (tem-se a impressão de que ao menos o eu-lírico teria sido ferido de morte por uma bala de seus perseguidores) colabora com a genialidade do texto: com tom lamentoso, conta suas esperanças; mesmo atingido, incentiva sua companheira a agir rápido e atirar nos perseguidores: ainda a esperança viva. E, mesmo sabendo que talvez não alcancemos qualquer paraíso, sem a esperança (sem a utopia) não é possível atravessar qualquer deserto de problemas quase insolucionáveis.

Apesar da levada um pouco mais agitada de "Romance in Durango", ainda assim, se trata de uma canção triste, se não por se tratar de um Fandango muito lento, pelo menos por causa da trama e pelo tom da narrativa. A faixa seguinte, "Black Diamond Bay", à primeira audição, parece que vai mudar um pouco o rumo dado ao LP até aqui por causa da levada, Cowntry, rápida e dançante, mas não. A letra narra um fato ainda mais trágico do que a de "Romance in Durango". Com cenas recortadas, mais parecendo a descrição de um sonho (anos depois, os vídeo clipes também usariam esses recortes como forma de simular velocidade de acontecimentos), e imagens absurdas, a canção mostra cinco personagens em um hotel de uma fictícia ilha chamada "Black Diamond Bay". Nessa ilha, uma mulher deprimida cruza um homem grego prestes a se enforcar em um dos quartos, enquanto um soldado e um anão disputam um anel em um jogo de cartas no andar de baixo, onde também está o recepcionista do hotel. Até aqui a letra já nos joga no colo um cenário bastante sinistro, mas ainda piora. O recepcionista, mesmo espantado, dá uma corda ao homem grego, que lhe havia pedido e dito que seria pra matar-se no quarto em que se hospedara. Ao ver a disputa no andar de baixo, a moça resolve voltar e procurar o homem grego, que não abre a porta e acaba se enforcando. Nesse mesmo instante, o vulcão da ilha entra em erupção e mata a todos no lugar. Mas essa tragédia a mais não é o bastante para Dylan: num Gran Finale, o eu-lírico se transforma em alguém que vê a notícia da destruição da ilha pela TV e reclama dizendo que é só mais uma má notícia das tantas veiculadas pelo aparelho. Abre uma cerveja e diz que não há por que se importar ou se preocupar, afinal nunca planejou ir pra tal "Black Diamond Bay". Acho que, depois dessa canção, não há mais o que dizer sobre o homem moderno.

Então, a parte pesada do disco, iniciada com "One More Cup Of Coffee", continua, alentada um pouco pelo andamento dançante, mas ainda é sobre a desesperança.

"So I turned it off and went to grab another beer.
Seems like every time you turn around
There's another hard-luck story that you're gonna hear
And there's really nothin' anyone can say
And I never did plan to go anyway
To Black Diamond Bay."
  (Bob Dylan - Desire - Columbia Records; NY, 1976)

(Então eu desliguei e fui pegar outra cerveja. / Parece que toda vez que você se vira / Há uma outra história de pouca sorte que você vai ouvir / E não há nada realmente que alguém possa dizer / E eu nunca fiz planos de ir, de qualquer maneira, / Para a Baía do Diamante Negro.)

Depois dos desastres alegóricos, pra terminar seu discurso, Bob Dylan resolve revelar o seu em "Sara". Nesta canção se ouve o lamento do autor que tenta entender os porquês de sua amada, "Sara", o ter deixado. Sara Dylan foi a primeira esposa de Bob, de quem estava separado há algum tempo à época da gravação do disco.

O autor vai descrevendo na canção as alegrias vividas pelo casal e pelos filhos, fazendo pausas com um refrão variável em que aparece seu lamento pela separação e os questionamentos a respeito dos motivos, que não sabe. O desfecho é também trágico, mostra a praia linda, relatada no no início, agora maltratada pelo tempo; é também esperançoso, não há indicação de uma impossibilidade de retorno do casal.

Depois de pronta e gravada, Dylan quis que sua musa inspiradora fosse a primeira a ouvir a canção (além daqueles que participaram da composição e gravação). Ao final da audição, ambos se deram um longo abraço que parecia a reconciliação realizada, mas o clima mágico não durou muito: em pouco tempo estariam separados novamente em definitivo.


Agora a reflexão geral a respeito do disco:

1 - Temática = as canções giram em torno do tema da condenação injusta, consequente perseguição e final trágico (o protagonista se dá mal no fim), com exceção de "Isis", "Mozambique" e, em termos, "Sara".

2 - Andamento = o disco todo (incomum na carreira de Dylan até então) traz canções muito lentas e em tom de lamento, com exceção de "Mozambique", "Hurricane" e "Black Diamond Bay" (as duas últimas com narrativas trágicas e desesperançosas).

3 - Contexto = quando da gravação do disco, Dylan havia passado pelo rejeição do público por os 'ter traído' ao começar a gravar e se apresentar com uma banda; Dylan havia sobrevivido a um acidente grave de moto e, por isso, passou muito tempo em resguardo; Dylan havia passado por uma separação traumática de sua esposa, da qual não entendia o motivo.

4 - Rumo tomado a partir de então = depois de "Desire", Bob Dylan gravaria dois discos ao vivo e um LP de estúdio antes de abraçar a cristianismo radical e gravar dois discos enfatizando a temática religiosa e um terceiro em que passaria a tocar menos no assunto. Só depois é que voltaria a se aproximar novamente do judaísmo e da temática social.

A partir disso pode-se dizer que "Desire" é um disco fúnebre, em que Dylan parece querer enterrar a si mesmo, ou àquilo que nele parece não ter mais vida: compromisso social, compromisso com o alternativo e compromisso conjugal. "Desire" era o canto fúnebre para o Dylan contestador e pai de família.

Mas, ainda bem, que a fase messiânica passou logo!


Em resumo, Bob Dylan influenciou uma larga gama de compositores de Música Pop ao mostrar que é muito possível ser popular e intelectual ao mesmo tempo; Bob Dylan acabou, da mesma forma, influenciado por aqueles que influenciou, tanto que aderiu à guitarra elétrica e ao acompanhamento de uma banda; Bob Dylan, durante toda sua carreira, mostrou que só pode ser fiel, como artista, ao surpreendente (quando a música pop era elétrica, ousou ser somente ele e seu violão; quando esperavam isso dele, se eletrificou; quando o amavam por ser contestador, virou cristão fervoroso; quando viam nele o tradicionalismo, passou a experimentar as novas ondas; quando achavam que ele mostraria um novo caminho para a Música Pop, voltou a gravar Folk). Enfim, Bob Dylan nunca, na verdade, deixou de ser contestador e alternativo, cada rumo tomado era na verdade uma contestação tão radical que feria até mesmo os caminhos por ele mesmo trilhados e aqueles que o haviam amado por tais caminhos; quem amou a mudança nele o amou sempre.



REFERÊNCIAS




BOB DYLAN




DESIRE




CRÍTICA (Desire)








* É muito difícil achar material em vídeo da obra de Bob Dylan disponível gratuitamente, e não é diferente com as canções de "Desire", por isso, nesta resenha, só foi possível colocar link para as canções separadamente em cada faixa, sendo  uma cover, "Black Diamond Bay", e as demais de sites variados.