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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Technical Ecstasy

                                                                     O PRINCÍPIO DO FIM





Considerada a banda que deu vida ao Metal, Black Sabbath havia gravado seu primeiro LP, homônimo, em 1970, disco conceitualmente diferente de tudo que já se havia visto e ouvido na música. O LP abre, arrebentando, com a faixa que dá nome ao disco e à banda, e que daria um rumo ao quarteto britânico e a um novo modo de fazer Rock a partir de então: o Heavy Metal.

Black Sabbath, a canção, foi composta pelo baixista, e principal letrista, Geezer Butler, fã incondicional de romances de terror e de magia negra, depois de assistir a um sucesso Cult italiano do gênero chamado "I Tre Volti Della Paura" (As Três Máscaras do Terror) de 1963, exibido com o nome de "Black Sabbath" na Inglaterra e nos Estados Unidos, contando a história de alguém que visitado por Satã (N.I.B., a quarta faixa do mesmo disco, conta a mesma história na versão próprio diabo). Segundo os membros do grupo ela foi inspirada numa experiência real do baixista, que teria visto, em seu quarto, uma figura negra, que despareceu, assim como surgiu, desaparecendo também com um livro de magia negra que Ozzy teria dado ao compositor. História promocional ou não, o fato é que a canção estreou tudo que viria depois, influenciando o Rock britânico, e mundial, tanto ou mais do que os Beatles fizeram na década anterior.

A temática do mal sempre havia feito parte das canções de Rock, a possibilidade de um encontro com o diabo sempre rondara as composições artísticas de todos os tempos, mas ninguém, ainda, havia conseguido registrar de maneira tão eficiente, simples e popular as simbologias do satânico, aliando referencialmente o dito na letra com o clima sugerido pela harmonização dos instrumentos, estrutura musical e  modo de cantar a melodia. Depois de sons de trovoada e chuva forte, com batidas pesadas e andamento extremamente lento (auxilado pelo trítono do diabo), a canção consegue levar qualquer pessoa para o plano do terror e do medo mais profundo, mesmo que não entenda uma só palavra do que diz a letra, somente com o que sugere a música em si. Ela é terrificante sem precisar da explicação, do logos contido no poema.

A canção de abertura de "Black Sabbath" abre também a carreira da banda, pautada na temática do oculto e da maldade humana e social; e abre também as portas do Rock para o Metal Pesado, de onde nasceriam, depois, as bandas mais cultuadas do gênero consequente do que ela criou sob as bigornas de Birmingham.

O disco foi sucesso, de público e de crítica, assim como o segundo, "Paranoid", ainda em 1970; assim como o terceiro, "Master of Reality", no ano seguinte; assim como o quarto, "Vol. 4" e o genial "Sabbath Bloody Sabbath" de 1973. Após um hiato de dois anos, em 1975, lançaram "Sabotage", tipo de álbum que separa ouvintes radicais em dois: os que o amaram e os que o odiaram, principalmente por se ter a impressão de um certo cansaço do grupo consigo mesmo; as canções parecem não seguir uma linha conexa de tema ou de estrutura, dando a entender que havia uma pretensão de seguir novas influências: no caso, o Rock Progressivo, incrivelmente, aquele que surgiu por influência do próprio Sabbath; fato este que se mostrou verdadeiro nos próximos álbuns em que, inclusive, os sintetizadores tomaram espaço cada vez maior na composição das canções; o que poria fim também no Black Sabbath original e clássico: o quarteto, do Rock pesado e sujo, falando do mal, do medo e do oculto.




Black Sabbath

                                                               (A banda)


Todos os integrantes eram de Birmingham, segunda maior cidade do Reino Unido e importante polo industrial da Europa, e filhos de trabalhadores de Classe Média. Começaram a tocar juntos, em 1966, depois que Iommi e  Ward leram, num anúncio, que alguém procurava músicos para formar uma banda; este alguém era John "Ozzy" Osbourne, antigo conhecido de escola de Iommi. Acrescentados, depois, o baixista, Geezer Butler, e o saxofonista, Aker Clarke, decidiram chamar a si próprios de Polka Tulk Blues Band, construindo um reportório de Blues e Rock Clássico. Com a saída de Clarke, decidiram mudar o nome para Earth, mais curto e mais impactante. Porém esse nome não durou muito, pois descobriram que já havia uma outra banda com esse mesmo nome; foi, então, que surgiu Black Sabbath, por sugestão Butler, que já trabalhava na composição da canção homônima.

Já era 1969, e o som da banda mudava rapidamente para o que conhecemos hoje como aquilo que soa como Black Sabbath (clássico), com a gravação de singles que abriram muitas portas e espaços pro grupo, de pubs famosos a estúdios conceituados. O primeiro álbum, também chamado Black Sabbath, veio em 1970, gravado em um único dia. Sobre isso, Tony Iommi diria: "Entramos no estúdio e fizemos tudo num dia só: tocamos nosso repertório daquele tempo e pronto. Achamos até que um dia era tempo demais [para gravar um disco], então viajamos no dia seguinte para tocar na Suíça por um cachê de 20 libras". Além disso, a mixagem do disco também não foi das melhores, mas isso não afetou o sucesso que a novidade intrínseca na obra poderia alcançar: o público e a crítica logo notou que algo novo, e bom, surgia naquele LP com oito músicas pesadas e obscuras. E estavam certos, o álbum "Black Sabbath" pode ser considerado tão influente no Rock quanto "Sgt. Pepper's" dos Beatles, ou mais, afinal, do primeiro álbum de Black Sabbath, surgiu, não só a carreira do próprio grupo, como também a de muitos outros.

Depois do sucesso dos primeiros discos, a banda começou a dar os primeiros sinais de esgotamento já em 1975,  quando do lançamento se "Sabotage", álbum em que a banda passou a experimentar novas sonoridades e estruturas musicais, muito influenciadas pelos mesmo que haviam se influenciados com eles: os grupos de Rock Progressivo e Hard Rock, muitas das faixas chegam a soar muito mais Led Zeppelin que o próprio Led Zeppelin. A formação clássica (Iommi, Ozzy, Butler e Ward) duraria só até 1978, com a gravação de "Never Say Die!"; Ozzy já havia saído em 1977, depois dos shows de "Technical Ecstasy", mas voltou pra gravar os vocais de outro álbum porque o grupo não consegui achar outro que o substituísse. Ozzy, porém, apenas gravou o disco e logo se retirou novamente, não fez um show sequer de promoção. Ozzy, como qualquer grande astro do Rock, também teve seus problemas com excesso de drogas e sexo, além de problemas pessoais, como a morte do pai e o divórcio da primeira esposa. Dos excessos todos, Ozzy se defendeu dizendo que era vítima de perseguição, pois o grupo todo (e todos os grupos) faziam o mesmo, e na mesma quantidade. Contudo, Ozzy, no Black Sabbath, era o único que obrigava o grupo a cancelar shows, ou se apresentar sem o vocalista, simplesmente porque o tal estava em estado de torpor tão deplorável, que não era capaz de se levantar da cama.

Depois da saída de Ozzy, os demais integrantes também saíram e voltaram infinitas vezes, exceto Tony Iommi, o verdadeiro Front Man do grupo; ele, inclusive, se apresentava a frente e no centro do palco, com o vocalista posicionado na lateral, formação nem um pouco usual para uma banda de Rock. A sonoridade de Black Sabbath também tomou um rumo muito diverso daquele que o projetou para o grande público, se aproximando, no início, do Rock Progressivo e, depois, do Hard Rock soando como o Glam Metal de Iron Maiden, banda também influenciada por Black Sabbath: seu nome, inclusive, deriva de um dos clássicos do Sabbath, "Iron Man".

Black Sabbath só retomaria a sonoridade e a formação clássica (mas sem o baterista original) em 2013, com uma turnê internacional e a gravação de inéditas, no derradeiro disco da banda: "13".




Technical Ecstasy

                                                              (White Album)




Deu branco. Assim como os maiores ídolos de Ozzy, The Beatles, Black Sabbath também teve sua fase crítica, iniciada na salada mista chamada "Sabotage", com clímax em "Technical Ecstasy" e desfecho trágico com "Never Say Die!".

O grupo fora genial desde o primeiro disco, sendo inovador e principiador em tudo, e segurou a onda sempre, até que grupos influenciados por ele, mas com pegadas diferentes, passaram a ser também seus concorrentes. Desde "Sabotage" o quarteto nem mesmo era mais quarteto: com a inserção de Gerald Woodruffe nos teclados, um quinto elemento surgia mudando a cara do som e o som dos caras, cada vez mais próximo do Hard Rock e do Progressivo. Assim, o Black Sabbath se tornava mais técnica e menos performática, o que acabaria por diminuir a importância de Ozzy, algo que ele sentiu e reclamou ao desabafar que os solos de Iommi mais pareciam parte de um grupo de Jazz, não de Rock.

A crise, em 1975 e 1976, também era econômica: os membros do grupo passavam por dificuldades financeiras, tendo gastado mais do que recebiam - o que, aliás, era fato corriqueiro em qualquer parte do globo em meados dos anos 1970. O uso e o abuso de drogas ilegais também fez parte do cotidiano deste grupo de sucesso - outro fato corriqueiro no mundo do Rock desde meados dos anos 1960 -, e, com isso: as diferenças postas em cheque, a incapacidade de compromisso e de organização exacerbadas, sendo o mais prejudicador Ozzy Osbourne (em constantes discussões com Tony Iommi e comuns faltas e atrasos a shows contratados) o começo do fim da banda se mostrava aparente.

Assim como os Beatles, o Black Sabbath também hasteou sua bandeira de rendição ao publicar um álbum branco em meio a crise, com esperança de melhora (It's All Right), mas em claro desacordo geral entre os integrantes; logo depois das turnês do álbum, Ozzy avisou que não voltaria mais a compor ou se apresentar com o Sabbath; mas, não tendo achado outro vocalista que o contentasse, Iommi pediu que Ozzy ao menos gravasse os vocais de "Never Say Die!"; Ozzy atendeu ao pedido e voltou a sair do grupo logo que terminadas as gravações. Era fim quase definitivo da formação clássica de Black Sabbath.

O álbum branco da banda mais dark da primeira metade dos anos 1970 era uma pá de cal no que representava o obscuro, o oculto, o medo, o terror, a guerra, a discórdia e o mal presente (e escondido) no homem, cantados nas letras divinas de Black Sabbath.

A grande diferença entre o Branco dos Beatles e o Branco do Sabbath é o resultado final: o quarteto de Liverpool deu o máximo de si, apesar das divergências, e publicou seu álbum mais icônico; o quarteto de Birmingham não se esmerou tanto nas composições, apesar da esperança, e publicou um dos álbuns mais desprezados pelos fãs.


Abrindo com "Back Street Kids", o Black Sabbath tenta dar a impressão, num Rock'n'Roll bom, mas leve (para os padrões Sabbath), quase dançante até, de que nada pode desintegrar a integridade do som e do espírito de quem cresceu com os garotos da rua de trás, alegoria muito usada por quem pretende se dizer do contra, à margem do usual, comportado e oficial. Porém não é exatamente o que canção mostra, nem o restante do disco, como veremos a seguir. A música soa mais Pop do que Rock, não fosse Black Sabbath, talvez não fosse respeitada por qualquer ouvinte sério de Hard e Metal; por isso, parece clara a intenção do grupo de se adequar aos novos tempos 'Brights' que viriam dali por diante.

Há uma desconformação entre letra e música, com a primeira dizendo que "Nobody I know will ever take my Rock'n'Roll away from me" (Ninguém que eu conheça vai levar meu Rock'n'Roll de mim) e a segunda querendo que o ouvinte balance os quadris e os ombros como só a melhor música Pop pretende e consegue; música pra colocar qualquer um nas rádios.

Na seguinte, "You Won't Change Me", o som lembra o desespero e o terror dos primeiros anos de Sabbath, mas com o mesmo tema de "Back Street Kids": "I am what I am / Nobody will ever change my ways". Nesta canção, o que se diz e o que se ouve se encaixam com maior coerência, porém ainda há aquela pequena dose de lamentação, no modo de cantar e no arranjo dos instrumentistas, que ainda deixam de confirmar fé plena no que se pretende expressar. Depois de declarar a máxima rebelde juvenil do Rock'n'Roll: não preciso de dinheiro e vivo o dia de hoje, o andamento pesado alivia um pouco e dá lugar a uma levada mais branda, onde o eu-lírico tenciona deixar de se lamentar para ouvir seu interlocutor, mesmo sabendo que isso não vai mudar em nada seu jeito. Mas, como já dito aqui antes, não é o que a evolução do disco vai mostrando, desde a letra até a instrumentação, com aquela deixando a obscuridade de lado e tratando de temas mais cotidianos e terrenos e esta deixando-se levar por influências do novo Hard Rock que surgia naquele tempo.

Há, na canção, também, referência muito transparente aos Beatles ao se notar inserido na letra um verso que também lembra a de uma das mais famosas do quarteto de Liverpool: "Nobody's gonna change my world" (Nothing's gonna change my world, Across The Universe), juntamente com uma guinada na música que a faz soar muito como as velhas canções do grupo extinto em 1970. Há que se dizer aqui que, ao menos Ozzy (ou o único a confessar) admirava os Beatles como quem admira a um Deus. Mais uma razão pra desconfiar-se que talvez esse disco seja mesmo o "White Album" de Black Sabbath anunciando seu fim no meio de uma convivência arrastada e conturbada.

Ainda na mesma onda: não presto, mas vou continuar assim, "It's Alright" vem ainda mais cristalina que as anteriores, e ainda mais Beatles que estas também, tanto na letra, que soa esperançosa (novidade no Black Sabbath), como na toada, que, se alguém dissesse ser uma esquecida nos arquivos da Apple, qualquer um acreditaria; soa tanto como Beatles, que foi cantada inclusive pelo baterista,  Bill Ward, como fosse uma dissonante na obra completa da banda, assim como era quando Ringo Starr era colocado pra cantar.

A canção começa e termina com o eu-lírico explicando que, apesar de estarem a procura de iniquidades, nunca encontrão, por isso a certeza de que tudo está bem:


"Told you once about your friends and neighbours
They were always seeking but they'll never find it
It's alright, cuz it's alright"

(Black Sabbath - Technical Ecstasy - Criteria
Studios: Miami; EUA, 1976)


É preciso também relembrar que os integrantes, neste período, enfrentavam graves problemas financeiros e pessoais; portanto, esse mantra esperançoso servia também como um bom conselho para o músicos do grupo principalmente.

"Gypsy", a quarta canção do disco, volta à temática do oculto, mas ainda se parece muito com o que faziam outras bandas de meados dos anos 1970; o som lembra muito o Hard Rock de Led Zeppelin e The Who, assim como o modo de cantar a musa, endeusada e empoderada, diante de um súdito fraco e vacilante. O arranjo também flerta com o Art Rock ao incluir um piano tocado à moda Supertrump, com direito a backing vocals feminilizantes. Se fosse uma tentativa de popularizar o ocultismo numa música leve e palatável, pode ser que tenha funcionado, mas se foi somente um modo de falar sobre mais do mesmo, mas com uma nova roupagem, pessoalmente, me parece uma bobagem do princípio ao fim.

Uma das letras mais intrigantes e uma das músicas mais empolgantes do disco, "All Moving Parts (Stand Still)" lembra mais o Heavy Metal do Sabbath que as anteriores, com letra difícil de decifrar e levada pesada. Mesmo assim, a inclusão dos teclados e as muitas viradas no decorrer da canção não deixam dúvidas sobre o quanto os caras de Birmingham queriam soar modernos como seus herdeiros no Hard Rock.

A letra traz o sentimento de alguém derrotado por aquele contra quem batalhava, talvez alguém representando o poder da guerra, onde o mais forte e mais violento é que vence. Sabendo-se que Ozzy e seus companheiros eram continuadores do pacifismo dos anos 1960, apesar de serem do Metal, pode ser uma boa dica de início pra encontrar a ponta desse novelo a ser desenrolado; principalmente se considerar-se que os vencedores, os Estados Unidos da América do Norte, se auto intitulavam salvadores do mundo e propagadores da paz e da liberdade.


"And he's saying all men should all be free
What a combination, peace and radiation
And he's saying free men should fight for me
Just like his momma, he seems to get his pleasure from pain
And the rain, ain't that strange? Very strange?"


(Black Sabbath - Technical Ecstasy - Criteria
Studios: Miami; EUA, 1976)


Assim, pode-se imaginar que o vencedor, aqui repudiado, pudesse ser aquele que, com ajuda da irradiação (bomba H), conquistou a paz e levou a liberdade àqueles que temiam sua ira.

Voltando ao início do disco, o Rock, além de servir como base de rebeldia e âncora de segurança, agora também é cantado como remédio certo e urgente pra quem não aguenta mais ouvir falar das voltas que o mundo dá:


"Well i'm sick and tired of hearing 'bout the world and its hang ups
Gonna get myself together,
Take a ride downtown
Gotta see my rock 'n' roll doctor
Gotta see my rock 'n' roll doctor
Gotta see my rock 'n' roll doctor
Gotta see him, see him today
He's gonna blow me away"


(Black Sabbath - Technical Ecstasy - Criteria
Studios: Miami; EUA, 1976)


"Rock'n'Roll Doctor" é bom, direto e empolgante, como deve ser qualquer remédio que se preste a acabar com o tédio cotidiano. Se você não procura reflexões e foge de problemas, esse respiro no lamaçal da maldade humana, de Black Sabbath, é uma boa pedida pra noite toda.

 "She's Gone". Letra composta por Ozzy depois de divorciar-se de sua primeira esposa, é lenta, dramática e pesada. Apesar de soar como balada, talvez seja a canção do disco que mais se aproxime do que havia sido antes o Black Sabbath: banda com temática obscura e sem finais esperançosos, justamente o oposto do que se ouviu até a canção sexta da obra.

A letra fala do lamento no fim de um relacionamento, e a interpretação de Ozzy é tão autentica e sincera, que o drama descrito se torna peso pra canção, o que faz o ouvinte retornar ao clima de ocultismo presente nos primeiro LPs da banda. É uma interpretação emocionante e imperdível.

"Technical Ecstasy" termina com chave de ouro. Apesar da letra ainda ser sobre o cotidiano do homem comum num lugar qualquer e a música também partir da influência do Progressivo e do Hard Rock, "Dirty Women"  é muito boa e bem feita; tanto, que foi presença obrigatória nos shows da banda, com ou sem Ozzy.

É sobre um homem que, ao buscar prazer, e sem ter com quem, mesmo sabendo que seria uma desvantagem e não uma vitória, se submete à conquista rápida e eficiente comprando uma prostituta que lhe sirva.

Tanto a letra quanto a música são indicações do que se tornaria o Black Sabbath no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, banda de primorosa atuação técnica cantando sobre angústias mais humanas.

"Technical Ecstasy", o começo do fim de uma formação e sonoridade clássicas, iniciou tentando dizer que nada mudaria o Rock'n'Roll do Black Sabbath, ou o próprio Black Sabbath, mas não conseguiu manter sua promessa nem mesmo até a última faixa do LP, e, ao contrário, provou que tudo tem mesmo um fim, sobretudo aquele ou aquilo que encabeçou uma virada nos rumos estéticos e/ou ideológicos de qualquer movimento. O Hard Rock virou Heavy Metal depois de Black Sabbath e o Black Sabbath virou lenda depois do Heavy Metal: nunca mais Black Sabbath, nunca mais Heavy Metal, e vice-versa.



















REFERÊNCIAS


Site

Black Sabbath


Crítica

(Black Sabbath)

Collectorsroom
Plano Crítico
Na Mira do Groove
Aumenta que isso é Rock'n'Roll
O Globo
Whiplash (13)


(Technical Ecstasy)

Whiplash
El Portal Del metal
Metallizeo
Mundo Controverso


domingo, 28 de agosto de 2016

2112

2112
O futuro chegou?


O Rush começou em 1968, em Ontário, com Jeff Jones, no baixo e no vocal, John Rutsey na bateria e  Alex Zivojinovich nas guitarras, mais conhecido como Alex Lifeson. O nome, sugerido pelo irmão de Rutsey, batizou o grupo e sinalizou o início oficial da banda. Depois de várias mudanças na formação, a definitiva aconteceu em maio de 1971, constituída de Alex Lifeson, Geddy Lee e John Rutsey.

Em 1974, lançaram o primeiro LP, "Rush", de forma independente e distribuído pela "Moon Records", que restringiu o alcance ao publico consumidor de Ontário; porém, com a divulgação da Rádio Ohaio, o álbum cresceu em demanda, por isso foi redistribuído pela "Mercury Records", que deu conta do inesperado relevante sucesso de então, em outros centros inclusive.

Neil oficialmente juntou-se à banda em 29 de julho de 1974, duas semanas antes da primeira turnê do grupo nos Estados Unidos, para substituir John, que se viu obrigado a afastar-se por problemas de saúde. Neil tornou-se também o letrista principal, no lugar de Geddy, que possuía muito pouco interesse em escrever. Assim, Geddy e Alex resolveram focar nos aspectos instrumentais da banda, fato que possibilitou uma evolução artística surpreendente do conjunto; começava a formar-se uma das bandas mais completas do mundo e, por isso, uma das mais premiadas: prezavam pelo primor, pelo vigor e pela originalidade na instrumentação, harmonização e composição de arranjos, isso sem falar no cuidado semiológico ao construir as letras das canções;  a fantasia, a filosofia e a ficção científica, presentes nos temas, se tornaram marcas das canções do grupo e são pistas incontestável do interesse de Neil por estes assuntos.

Apesar de, desde o princípio, o Rush ser identificado como exímios instrumentistas (o que os colacava em igualdade com o que buscavam as bandas da época) no primeiro álbum, ainda eram apenas uma banda de Rock, ou Hard Rock, com muita influência do Blues, mais próximos dos Rolling Stones, que dos progressivos. Isso só mudou com a entrada de Neil e a gravação do segundo álbum "Fly By Night", que alçou os músicos no voo noturno das composições cabeça e da atitude intelectual.

A virada estética da banda não agradou nada o público, que passou minguar em cada apresentação das turnês; porém, com elogios sinceros e frequentes da crítica especializada, não se deram por vencidos e ousaram voos ainda mais imprevisíveis, lançando, em 1976, "2112", que trazia uma composição com vinte minutos de duração, impossível de ser executada em qualquer meio de comunicação da época, mas que foi seu primeiro grande sucesso de vendas, e o primeiro disco de platina do Canadá.

O grupo, que veio da tradição do Rock e do Blues, mas que já indicava suas intenções de renovação da música pop, se dedicando ao aprimoramento da composição e da interpretação (mais complexas), do seu voo noturno, emerge para um salto quântico para 2112, deixando, assim, evidente o futurismo que abraçaria depois dali.

1976, que transgredia no Hard Rock, no Metal e no Disco (este último para os dândis), apontou para o futuro em todas as suas possíveis amplitudes: de coisas como a abolição da pena capital (Canadá) ao lançamento da sonda Viking, cujo principal objetivo era alcançar o espaço mais longínquo levando informações sobre nossa humilde vida neste planeta. Foi também, para aquele incauto que não se atina, o ano de lançamento da Apple por Steve Jobs e Steve Wozniac, indústria (e conceito) que modificou totalmente nosso modo de viver hoje. Parecendo que os turbulentos movimentos dos anos 1960 se arrefeciam, o que restava para a nobre, e enriquecida, gente da década seguinte era pensar num futuro melhor e tecnologicamente facilitado e ampliado, mas sacrificando, em troca, a individualidade e a força criativa do homem. E o "Rush" pretendia participar e dar seu quinhão de humanidade a este futuro que presente se fazia.

Com "2112", expressaram toda sua verve futurística influenciados por autores de ficção científica e bandas progressivas do Reino Unido, que acabavam de conhecer e com quem passaram a conviver; os integrantes do Rush deixaram os sintetizadores e novos instrumentos tecnológicos se agregarem muito naturalmente à sonoridade do grupo, quase como uma evolução natural para quem buscava o aprimoramento técnico e estético na composição e na interpretação das canções.

"2112' é uma faixa com cerca de 20 minutos dividida em sete partes contida no Lado A do álbum, que conta a trajetória de um indivíduo vivendo (em 2112, provavelmente, considerando o título da obra) em um dos planetas de uma fictícia "Federação Solar", planeta este dominado pela tecnologia e pelo coletivismo, controlado e mantido por "Sacerdotes dos Templos de Syrinx", que fazem com que tudo continue em sua normalidade ao mostrarem as maravilhas de se viver num mundo organizado e com tudo pré concebido, com a vantagem de tudo parecer bom e agradável, e evitando qualquer princípio de criatividade e desvio de conduta que valorizem o individuo em detrimento do coletivo. Porém, o protagonista, em certa ocasião, descobre algo sem lugar neste mundo perfeito e ordenado: uma guitarra, que o deixa fascinado. Este trecho está em "Discovery", parte III da faixa, em que se percebe a primeira vista do instrumento pelo protagonista da jornada futurística como se fosse algo que poderia mudar por completo, não só sua própria vida, mas a de muitos: com a guitarra poderia, quem quisesse, exercer sua fonte vital de criação e descoberta; todavia, ao apresentar sua descoberta, parte IV, os "Sacerdotes" dizem já conhecer o tal instrumento e que este não teria nada a agregar ao mundo perfeitamente regulado em que viviam. Desanimado com a falta de lugar pra si e pra sua descoberta no Planeta da Federação Solar, o protagonista cai em sono profundo e sonha com um "Oráculo" que lhe orienta a 'voltar' ao "Planeta" e modificar tudo o que existia ali, mas este não parece ter forças para enfrentar os perigos e encabeçar tal empreitada; a última parte propõe um enigma aos ouvintes: "Attention all Planets of the Solar Federation / We have assumed control." (Atenção todos os Planetas da Federação Solar / Nós assumimos o controle); mas é difícil saber se é um aviso enviado por aqueles que também fizeram suas descobertas e, por fim, tomaram o comando de tudo (e não sabemos como nem por quem comandados) ou se trata de um aviso dado pelos "Sacerdotes dos Templos" aos demais planetas, que estariam, também, sob seu controle tecnológico. A perspectiva do ouvinte é que deverá manipular a interpretação deste "Grand Finale".

Lado A

As sete partes de "2112" são:

"I. Overture": instrumental e alegre, que apresenta sequências de notas similares a frases de “Overture 1812", de Tchaikovsky, criada pelo compositor para celebrar a vitória dos russos sobre o exército napoleônico em 1812, exército que vinha trazendo as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade da revolução francesa para o reino latifundiário da Rússia. Esta abertura, em tom festivo, é finalizada com uma citação do novo testamento de São Mateus: “And the meek shall inherit the earth” (E os mansos herdarão a terra), o que, considerando as doze fases da jornada do herói mítico, de Joseph Campbel, seria o fator desencadeador da crise na narrativa (levando em conta apenas a abertura).

"II. Temples of Syrinx": é apresentado o mundo futurístico em que vive o protagonista, onde tudo é ordenado e controlado por máquinas a serviço do bem estar da coletividade aos cuidados dos Sacerdotes. Neste cenário apresentado, não cabe a ninguém, nem aos Sacerdotes, criar novas soluções ou enfatizar o indivíduo; tudo é predeterminado e preconcebido para que cada um tenha seu justo lugar na comunidade, que é a única relevante. Assim, o sujeito, o protagonista, teria que abdicar de sua natural força individual e criadora para caber e viver em paz no Planeta da Estrela Vermelha.

"III. Discovery": o protogonista, então, descobre algo capaz de estimular sua força criadora: a guitarra (e a música), que o deixa tão maravilhado que quer compartilhar a descoberta com todos, como uma espécie de salvação pra qualquer um que fosse como ele, mas, antes, teria que apresentá-la aos Sacerdotes dos Templos: sem o aval destes, não poderia seguir em frente com suas intenções. 

"IV. Presentation": os Sacerdotes afirmam já conhecerem tal instrumento e que, de suas perspectivas, não teria utilidade alguma para o sistema já consolidado e aceito, podendo até mesmo ser nocivo ao estabelecido, portanto, devendo ser rejeitado e esquecido.

"V. Oracle: The Dream": decepcionado e desanimado, o protagonista cai em sono profundo e sonha com um "Oráculo", a quem, se explicando, pede uma luz (Dream can't you show me the light?). Este lhe orienta a voltar para reinvindicar o lar ao qual pertence, votar para romper, voltar para mudar (To claim the home where they belong / Home, to tear the Temples down... / Home, to change.).

"VI. Soliloquy": o protagonista acorda do sonho e percebe a dificuldade extrema em realizar o que conheceu através do "Oráculo"; na realidade que o cerca, lamenta ter que acordar: "I heave a sigh and sadly smile / And lie a while in bed / I wish that it might come to pass / Not fade like all my dreams" (Eu suspiro e sorrio triste / E deito um instante na cama / Quisera que isto pudesse acontecer / Não sumir como todos os meus sonhos). O protagonista encerra seu solilóquio com versos que remetem a uma profunda depressão diante da realidade que se lhe apresenta em contraponto ao sonho que teve e guarda: "My spirits are low in the depths of despair / My lifeblood spills over." (Minhas vitalidades estão baixas nas profundezas do desânimo / Meu sangue derrama.), lembrando também o novo testamento na cena em que Jesus, sozinho, no Monte das Oliveiras, chora sangue e afirma estar já sem forças, mas que, mesmo assim, intenta obedecer às ordens do Pai, que o levarão à Cruz.

"VII. The Grand Finale": a parte mais enigmática das sete. A partir do texto, só é possível fazer suposições, pois está do seguinte modo (Attention all Planets of the Solar Federation / We have assumed control), que, literalmente, é (Atenção todos os Planetas da Federação Solar / Nós assumimos o controle.), trecho sem complexidade sintática, mas, dentro do texto em que está inserido, quase impossível de ser decifrado, já que as pistas deixadas nas partes anteriores não nos permitem dizer com certeza qual dos lados está tomando o controle de quê: se os músicos criativos do "Planeta dos Templos de Syrinx", ou se os Sacerdotes do restante da "Federação". Temos apenas três vias de acesso ao entendimento: as doze fases da jornada do herói mítico que afirmam que o protagonista, depois da jornada, obrigatoriamente ressurge e retoma o controle da situação; as chaves que remetem ao novo testamento, onde o Cristo retorna e instaura a Nova Jerusalém, fazendo com que os mansos herdem a Terra (qual das partes seria a dos mansos é que é a questão a ser resolvida a partir daqui); a terceira e última via de acesso seria a simples (e complexa) analise do mundo que herdamos (dos que seguem sem questionar ou dos que recriaram outro possível modo de existir).

Realmente genial!


Lado B

Segundo muitos críticos e ouvintes, o Lado B não teria relação alguma com o Lado A, pois seria composto de seis canções bastante comerciais, pra época, com a finalidade única de agradar às rádios, à gravadora, aos produtores, aos consumidores e para que não reclamassem ao se virem obrigados a se sentarem por mais vinte e tantos minutos para que pudessem entender completamente o que lhe estava sendo "dito" neste lado do álbum.

Porém, considerando a faixa "2112" do Lado A, considerando que se trata de uma jornada heroica em busca da liberdade, considerando que se trata de uma jornada futurística e, por fim, considerando que se trata de uma jornada com um desfecho um tanto enigmático, pois não se poderia afirmar quem realmente teria vencido a batalha e tomado o controle da "Federação Solar", pode-se também chegar a uma, ainda que vaga, conclusão diferente unindo-se o Lado B ao Lado A a partir da primeira canção, "A Passage To Bangkok", onde um grupo de protagonistas afirma estar, no momento, rumo ao Oriente, figurado em qualquer parte do globo, onde teriam todos os prazeres e delícias que este, e seu povo, lhes poderiam oferecer (mesmo que seja claramente situado no Planeta Terra e não naquele ficcional de "2112"). Assim, pode-se seguir por dois caminhos: sendo o lado B o tempo anterior ao futuro "2112" (portanto nossa Terra seria o passado do "Planeta da Estrela Vermelha"), trataria esta canção do que o mundo perfeitamente controlado por trabalho e por máquinas poderia oferecer com uma rápida folga do real e do concreto (a desordem, a falta de sentido, o prazer e a embriaguez); sendo o Lado B uma continuação cronológica do Lado A, seria então aquilo em que teria se tornado o Planeta da Estrela Vermelha caso os revolucionários, os libertários, tivessem tomado o controle (um mundo onde a liberdade criativa estivesse potencializada a fim de criar uma outra ordem das coisas, e a Terra de nossos dias).

Parto eu da primeira hipótese, considerando o tipo de ordem vigente que continuamos a ter e considerando a ficcional e teórica SOMA, elemento químico presente em "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, que servia, em sua obra, como propiciador de prazer e de controle sobre aqueles que o ingeriam, a numerosa população trabalhadora. Desse modo, "Ir a Bangkok" significaria beber um pouco deste elixir a fim de "escapar", mesmo que por pouco tempo, da pressão do mundo extremamente organizado e controlado, para que tudo pudesse ser mantido como sempre foi, sem alternativas e sem questionamentos.
"A Passage To Bangkok"
Our first stop is in Bogota
To check Columbian fields
The natives smile and pass along
A sample of their yield
Sweet Jamaican pipe dreams
Golden Acapulco nights
Then Morocco, and the East,
Fly by morning light
We're on the train to Bangkok
Aboard the Thailand Express
We'll hit the stops along the way
We only stop for the best
Wreathed in smoke in Lebanon
We burn the midnight oil
The fragrance of Afghanistan
Rewards a long day's toil
Pulling into Katmandu
Smoke rings fill the air
Perfumed by a Nepal night
The Express gets you there
(RUSH - 2112 -  MercuryRecords; Toronto, 1976)

("Uma Passagem Para Bangkok": / Nossa primeira parada é em Bogotá / Para checar os campos colombianos / Os nativos sorriem e distribuem / Amostras de seus produtos / Sonhos com o doce cachimbo Jamaicano / Noites douradas de Acapulco / Então Marrocos, e o leste / Viajando na luz da manhã // Estamos no trem para Bangkok / A bordo do Expresso da Tailândia / Nós atingiremos as paradas no decorrer do caminho / Nós só paramos para o melhor // Cobertos por fumaça no Líbano / Nós queimamos o óleo da meia-noite / A fragrância do Afeganistão / Recompensa o trabalho pesado de um longo dia / Entrando em Katmandu / Anéis de fumaça enchem o ar / Perfumado por uma noite do Nepal / O Expresso leva você lá)

Além disso, há também marcas no texto capazes de confirmar esta hipótese :

"The fragrance of Afghanistan
Rewards a long day's toil"
           (RUSH - 2112 -  MercuryRecords; Toronto, 1976)
(A fragrância do Afeganistão / Recompensa o trabalho pesado de um longo dia)

Seguindo em frente, a próxima parada seria "The Twilight Zone" (A Zona do Crepúsculo), onde, se considerarmos  a ida a Bngkok, como ato rejuvenescedor, curativo e proporcionador de continuidade: estado de repouso inicial, se tem um protagonista em um novo patamar: um lugar escuro onde os sonhos é que orientam, através do descontínuo (oposição ao regrado pela ordem e continuidade).

"The Twilight Zone"
A pleasant faced man steps up to greet you
He smiles and says he's pleased to meet you
Beneath his hat the strangeness lies
Take it off, he's got three eyes
Truth is false and logic lost
Now the fourth dimension is crossed...
You have entered the Twilight Zone
Beyond this world strange things are known
Use the key, unlock the door
See what your fate might have in store...
Come explore your dreams' creation
Enter this world of imagination...
You wake up lost in an empty town
Wondering why no one else is around
Look up to see a giant boy
You've just become his brand new toy
No escape, no place to hide
Here where time and space collide
You have entered the Twilight Zone
Beyond this world strange things are known
Use the key, unlock the door
See what your fate might have in store...
Come explore your dreams' creation
Enter this world of imagination...
 (RUSH - 2112 -  MercuryRecords; Toronto, 1976)
("A Zona do Crepúsculo": Um homem de rosto amável caminha para te cumprimentar / Ele sorri e diz que é um prazer te conhecer / Sob seu chapéu a estranheza existe / Tire-o, ele tem três olhos / Verdade é falsa e a lógica, perdida / Agora a quarta dimensão é cruzada // Você entrou na Zona do Crepúsculo / Além deste mundo coisas estranhas são conhecidas / Use a chave, destranque a porta / Veja o que seu destino pode ter guardado / Venha explorar a criação dos seus sonhos / Entre neste mundo de imaginação // Acordar perdido em uma cidade vazia / Pensando por que não há alguém ao redor / Olhe para cima para ver um garoto gigante / Você acabou de tornar-se seu mais novo brinquedo / Sem escapatória, nenhum lugar para se esconder / Aqui aonde Tempo e Espaço colidem // Você entrou na Zona do Crepúsculo / Além deste mundo coisas estranhas são conhecidas / Use a chave, destranque a porta / Veja o que seu destino pode ter guardado / Venha explorar a criação dos seus sonhos / Entre neste mundo de imaginação).

Ainda considerando "A Passage To Bangkok" como aquilo que se teria como recompensa, num mundo antes do ficcional "2112", para um cotidiano forçosamente bem regido e estável, esta "Twilight Zone" poderia ser considerada uma espécie de desacordo, uma falta de prazer, ou de sensação de prazer, com a tal passagem pelo Oriente, o que proporcionaria, ao contrário disso, uma descida à escuridão, à frieza e ao nunca visto (por isso estranho); analogamente, seria o mesmo que se viu no Lado A do disco quando o protagonista de "2112" teve sua apresentação menosprezada, e proibida, pelos "Sacerdotes dos Templos" e, caindo num sono profundo, por estar em desacordo, tem um encontro com o "Oráculo", o sonho, que lhe orientou de que forma deveria agir a partir de então. Neste Lado B o protagonista não é convidado a agir, mas a explorar toda sua potencialidade em imaginação, na "Zona do Crepúsculo".

Depois dessa descida aos porões dos sentidos e dos pensamentos, também em oposição àquilo que ocorreu com o protagonista presente no Lado A do disco (aqui um que estaria no futuro deste do lado B), o protagonista do lado B retorna de um lugar não descrito (talvez "A Zona do Crepúsculo") com "Doces lembranças" e intentando "ensinar" o que lhe foi "ensinando" como "o caminho para seguir". No lado A, em "2112", o protagonista, depois de receber estritas orientações do "Oráculo" para que agisse e "mudasse" a ordem das coisas, se vê tomado por angústia e falta de força para enfrentar e mudar a realidade, o que acaba por lhe paralisar e deixa o ouvinte sem saber ao certo se houve ou não uma mudança e encabeçada por quem, já que, a partir da extrema tristeza e impotência cantada pelo protagonista em "VI. Soliloquy" é possível até imaginar que este não teria sobrevivido por um motivo qualquer ou desistido da luta. 

"Lessons"
Sweet memories
Flashing very quickly by.
Reminding me,
And giving me a reason why.
I know that
My goal is more than a thought.
I'll be there,
When I teach what I've been taught,
And I've been taught...
You know we've told you before,
But you didn't hear us then.
So you still question why.
No! You didn't listen again.
You didn't listen again.
Sweet memories.
I never thought it would be like this.
Reminding me
Just how close I came to missing.
I know that
This is the way for me to go.
You'll be there,
When you know what I know.
And I know...
You know we've told you before,
But you didn't hear us then.
So you still question why.
No! You didn't listen again.
You didn't listen again.
 (RUSH - 2112 -  MercuryRecords; Toronto, 1976)
("Lições": Doces lembranças / Reluzindo muito rapidamente. / Lembrando-me, / E dando-me uma / razão. /Eu sei que / Minha meta é mais que uma reflexão. / Eu chegarei lá, / Quando eu ensinar o que me foi ensinado, /E me foi ensinado... // Você sabe que lhe contamos antes, / Mas você não nos ouviu. / Então você ainda pergunta por quê. / Não! Você não escutou novamente. / Você não escutou novamente. // Doces lembranças. / Eu nunca pensei que isto seria assim. / Lembrando-me / Do quão perto cheguei de perder. / Eu sei que / Este é o caminho para eu seguir. / Você chegará lá, / Quando você souber o que eu sei. / E eu sei... // Você sabe que lhe contamos antes, / Mas você não nos / ouviu. / Então você ainda pergunta por quê. / Não! Você não escutou novamente. / Você não escutou novamente.)
Neste lado B, opostamente, o protagonista surge muito disposto a espalhar as novidades aprendidas por ele. Porém, deixando bem claro que já não é a primeira vez que este se põe, junto com outros, já que o refrão é narrado na primeira pessoa do plural, a ensinar suas lições aprendidas, ao que o interlocutor não teria dado ouvidos da primeira vez (ou primeiras vezes). O tom aqui também é de alegria e esperança, ao contrário do extremamente melancólico e desesperançoso contido em "Soliloquy".

As "Lágrimas" só rolam nesta parte do disco não por que o protagonista se sente totalmente sem forças, mas por que este é convencido, "profundamente", por aquelas que descem pelo rosto de quem tem por quê chorar: "a verdade". "Tears" descreve alguém que vivia perdido em sentimentos contrários aos que agora tinha e que fora regenerado por representação profunda de sentimento ao ver as lágrimas rolarem pelo rosto daquele que o tentava convencer da verdade.

"Tears"
All of the seasons
And all of the days
All of the reasons
Why I've felt this way
So long, so long
Then lost in that feeling
I looked in your eyes
I noticed emotion
And that you had cried
For me
I can see
What would touch me deeper
Tears that fall from eyes
That only cry?
Would it touch you deeper
Than tears that fall from eyes
That know why?
A lifetime of questions
Tears on your cheek
I tasted the answers
And my body was weak
For you
The truth
 (RUSH - 2112 -  MercuryRecords; Toronto, 1976)
("Lágrimas": / Todas as estações / E todos os dias / Todas as razões / Por que me senti desta forma / Tanto tempo, tanto tempo // Então perdido naquele sentimento / Eu olhei nos seus olhos / Percebi emoção / E que você tinha chorado / Por mim / Eu posso ver / O que me tocaria mais profundamente / Lágrimas que caem de olhos / Que apenas choram? / Isto te tocaria mais profundamente / Do que lágrimas que caem de olhos / Que sabem por quê? // Uma vida de perguntas / Lágrimas na sua bochecha / Eu experimentei respostas / E meu corpo foi fraco / Por você / A verdade).

Bem próxima do amor romântico, contendo sofrimento e regeneração, a canção parece supor que que só a verdade, só o amor, sincero, é capaz de realmente modificar uma situação; contudo esse amor pode, aqui, ir além de um relacionamento interpessoal; levando em conta o que aqui se percebeu das intenções do grupo, é quase certo se tratar de um amor por um ideal, de liberdade, que seria o verdadeiro amor ao próximo, amor a todos que pretendem uma vida digna, ao contrário do amor pessoal, que pretende o bem irrestrito de uma única pessoa.

Fechando o Lado, e o disco, "Something For Nothing" retoma o tema de "V. Oracle: The Dream", ao mostrar um narrador se dirigindo a alguém que espera por mudanças, que espera por tempos melhores, que espera por alguém que o livre de seus males, avisando que nada acontece por nada: alguém teria que por as mudanças possíveis em prática, e esta única pessoa capaz de agir a favor da verdade seria aquela que tem conhecimento da verdade; portanto, este que sabe, mas espera. Seria então uma palavra de ordem para aquele que sabe como tudo poderia ser melhor: este teria que proporcionar a mudança ao agir a favor dela.


"Something For Nothing"
Waiting for the winds of change
To sweep the clouds away
Waiting for the rainbow's end
To cast its gold your way
Countless ways
You pass the days
Waiting for someone to call
And turn your world around
Looking for an answer to
The question you have found
Looking for
An open door
You don't get something for nothing
You can't have freedom for free
You won't get wise
With the sleep still in your eyes
No matter what your dreams might be
What you own is your own kingdom
What you do is your own glory
What you love is your own power
What you live is your own story
In your head is the answer
Let it guide you along
Let your heart be the anchor
And the beat of your own song
 (RUSH - 2112 -  MercuryRecords; Toronto, 1976)
("Algo Por Nada": Esperando pelos ventos de mudança / Para varrer as nuvens para longe / Esperando o fim do arco-íris / Largar o ouro dele no seu caminho / De incontáveis maneiras / Você passa os dias // Esperando que alguém chegue / E gire todo o seu mundo / Procurando uma resposta / Para a pergunta que você achou / Procurando por / Uma porta aberta // Você não consegue algo por nada / Você não pode ter liberdade de graça / Você não ficará sábio / Com o sono ainda em seus olhos / Não importa quais sejam seus sonhos // O que você possui é seu próprio reino / O que você faz é sua própria glória / O que você ama é seu próprio poder / O que você vive é sua própria história / Na sua cabeça está a resposta / Deixe ela te guiar adiante / Deixe seu coração ser a âncora / E o batimento da sua própria canção)

Partindo da hipótese deste ser um Lado dedicado a acontecimentos anteriores ao suposto "2112", é possível imaginar se tratar esta canção daquele mesmo "Oráculo" que, num sonho, exigiu que o protagonista, sabendo da verdade através dele, tomasse o comando de si e provocasse as mudanças de que o "Planeta Vermelho" necessitava para que a liberdade criativa florecesse e prosperasse.

Assim sendo, já saberíamos o que viria a seguir, a recusa do protagonista, e a posterior incógnita contida em "VII: The Grand Finale".

Mas há uma outra alternativa: partir da hipótese deste Lado B ser sobre os acontecimentos pós "VII: The Grand Finale", mas, neste caso, ficaria a cargo do leitor formular sua argumentação a respeito, sobretudo por causa da dificílima tarefa de explicar por que o ano de 2112 seria o passado de 1976.

Ou então, como pensam muitos, este Lado B não ter nada a ver com o Lado e A e ser composto por músicas soltas e comercialmente feitas com o simples propósito de preencher espaço e conquistar o público consumidor menos ávido por novidades conceituais. Assim não precisaremos mais nos delongarmos em divagações a respeito de símbolos, significantes e semântica.

Por isso tudo acho que o disco é genial, principalmente por conter tantas incógnitas proporcionadoras de conjecturas.