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sábado, 8 de outubro de 2016

O MAL (Juliana Cortes)



                          O MAL


PRA OUVIR E SENTIR E REFLETIR


Juliana Cortes  é nome do bom vento que vem das bandas do Sul, aquele que traz frescor às noites quentes e movimento brando às águas mansas.

Misturando só o que vale a pena de tudo que pode fazer parte de um objeto musical, faz qualquer ouvido, antes maltratado pelo que a grande mídia teima em nos fazer engolir, entrar no modo "sou feliz porque existo" tamanho o capricho em cada detalhe, por menor que seja, que a moça e seus influentes companheiros põem no produto final: o CD, se é que se pode chamá-lo assim, melhor seria chamá-lo obra prima.

A própria Juliana diz que o gênero das canções que faz e interpreta se encaixa em Word Music ou Jazz, mas isso é pura conveniência, pois é música e ponto, nela cabendo o mesmo Jazz, a milonga, um quezinho de Rock e Pop, os sotaques tantos da música do Brasil e tantas outras modas que deixo pro leitor/ouvinte identificar: a surpresa ainda é a melhor forma de sedução.

A curitibana gravou seu primeiro disco em 2013 (Invento), mas, segundo ela mesma, desde menina já estava no meio musical: cantando em corais, participando da gravação de discos infantis, se enturmando com a galera da pesada no ramo; tanto que acabou cruzando com Vitor Ramil, um dos expoentes da música brasileira que vem sendo feita no Sul do país desde a virada do milênio; aliás, "Longe das Capitais", o Sul nos tem presenteado com música pra lá de refinada há um bom tempo, e o sabor só tem melhorado com o passar dos tempos.

O encontro com Vitor Ramil (além do encontro com Moska, Dante Ozzeti, entre outros) só se deu no segundo trabalho (Gris - 2016), mas, por conta, já estudava sua "Estética do frio" para compôr a estrutura de suas canções e orientar sua carreira, valendo até uma parceria em "Gris" com poema de Paulo Leminski musicado por Ramil.

A letra, aliás, é também ponto fortíssimo nas canções de ambos os discos, impossível eleger o que, no trabalho de Juliana, se destacaria mais. Enquanto a composição harmônica e rítmica sossega, tranquiliza faz do ouvinte realmente ouvinte, a letra o (e)leva pro lugar onde a beleza da lógica e da novidade residem. Prestar atenção no que diz o texto das canções é iniciar reflexões e transcendências, às vezes lado a lado, às vezes não.

"Filosofando" (Invento - 2013), por exemplo, traz, na letra, a beleza que transcende e a lógica que ilumina, contando de um passarinho que, observado, deixa o eu-lírico extasiado com a epifania que lhe desperta: sem ter nada de seu, tem o céu azul onde voa e o  verdejar das árvores em que pousa, tendo assim "muito mais" que aquele que canta. Pra parar e pensar.

Agora, em 2016, sua voz levemente grave e agradavelmente doce está em "Gris", segundo álbum de Juliana Cortes, com parcerias que deixariam qualquer bom ouvinte interessado em conhecer.

Entre elas, "O Mal", com Arrigo Barnabé, que também participou da gravação, foi escolhida para o primeiro clipe do disco. A canção, lenta e ligeiramente suingada, diz de alguém que, pela primeira vez, encontra o mal em si, como se agisse criminosamente, sem nunca ter pensado nisso, por obrigação da realidade que se lhe apresenta. No vídeo clipe, diferentemente da faixa no álbum, a letra não se repete, é cantada apenas uma vez; porém dá algumas dicas de significados que a audição não nos ajuda a decifrar. Junto com a introdução da música, há, na tela, dois grandes olhos que se abrem repentinamente e que se mantêm arregalados por alguns segundos, quando é feito um corte para um quarto sombrio e simples, passando, a seguir, para tons de vermelho e marrom. Interessante é que no quarto há uma garotinha que desperta e se levanta (logo depois de desaparecerem aqueles grandes olhos da introdução) e esta é a Dorothy  de "O Mágico de Oz" (1939); quando a garotinha sai do quarto onde despertara, a cena muda para preto e branco, ela continua caminhando, e muda novamente par os tons de marrom e vermelho, ela se assusta com uma TV ligada à altura do chão e para pra olhar como se não soubesse do que se tratava. O clipe segue misturando elementos míticos e de fantasia, algumas apenas ilustrando o dito na letra, até que, no final, a menina Dorothy  é colocada em uma queda livre como aquela da famosa Alice no "País das Maravilhas". Entre anjos caídos, Dorothys despertas enfim e Alices em novo mundo, pode-se dizer, com a ajuda do vídeo, que esse mal era latente e necessário pra continuar a jornada heroica.

A parceria com Ramil e Leminski também é imperdível. "O Velho Leon e Natália em Coyoacán" pode referir-se a Leon Trótzki em sua passagem pelo México, onde foi assassinado por espiões russos, após ter fugido da perseguição de Stalin, usurpador do poder quando da morte de Lenin, que preferia como sucessor o camarada morto em Coyoacán. Assim pode ser entendida, além de com as marcas presentes já no título da canção, também por causa das palavras do poema, que contam de um dia que nunca mais se repetiria como um que já houvera em Petrogrado antes, cidade tomada pela revolução bolchevique em 1917.

"Saia Azul" (Dante Ozzetti/Chico Cesar), diz de alguém que tem em uma saia comprada por alguém que deixava as Minas Gerais pra não mais voltar e que se contenta em demasiado ao usar a tal saia comprada ao deixar a terra natal.

Mas tiro certeiro foi mesmo com "Indo ao pampa" (Vitor Ramil), equilibrando suavidade e gravidade tão bem que tem-se a impressão de flutuar ao ouvi-la; isso sem falar nas genialidades usadas no texto, genialidades como: "Quase ano 2000, / mas de repente avanço a 1838 (...) /  porque os homens por ali estão pra lá dos anos 2000", ao falar de alguém que retorna os pampas do Rio Grande do Sul; um pouco mais adiante, seguindo o refrão "eu indo ao pampa, o pampa indo em mim", representação certeira do que é a felicitação de reencontrar algo que vive dentro mesmo que esse algo esteja demasiado longe.


Se você ainda não conhece Juliana Cortes, não se demore em conferir suas obras primas: é prazer garantido; mas não se esqueça, só fará efeito se ouvir sentado, tranquilo e com tempo: pra pensar e sentir.




REFERÊNCIA


JULIANA CORTES

CRÍTICA





sexta-feira, 23 de setembro de 2016

INFINITO AGORA

Infinito Agora
Além de gente, além de vida, além do próprio estado, existe também Rock (e do bom) no Acre.


Veio de Rio Branco esta pérola que é Los Porongas. Tocando juntos desde 2003, passaram por festivais universitários e gravaram seu primeiro álbum, "Los Porongas", em 2007 com produção de Philippe Seabra (Plebe Rude), que foi colocado pela Rolling Stone entre os melhores álbuns do ano.

Desde este primeiro disco o cuidado com a harmonização, com a melodia e com a poética dão tom do que se poderia esperar do grupo. Sim, são canções de amor que se ouve nesse disco, como nos posteriores, mas são bem feitas em cada detalhe, sempre fugindo do comum, do simples , principalmente, do piegas. É Folk porque se pode tocar em um violão qualquer em qualquer canto e porque fala do amor poeticamente. É Rock porque cheira a pretensão popular e porque quer fazer parte. É Psicodélico porque transcende e porque nos leva junto numa viagem sem volta (ouviu, não tem como desouvir).

E veio o segundo trabalho. E voltaram o capricho, a poesia e a viagem. Tudo ainda estava lá em "O Segundo Depois do Silêncio" (2011), mas com mais calma e suavidade, aparentando menos urgência e vontade de fazer parte (menos atitude Rock). Soava mais íntimo e com mais ênfase no texto das canções. E era um trabalho também de requinte para os ouvidos do brasileiro que ainda busca bom som e bom Rock brasuca.

Mas o "Infinito Agora" (2015), de certa forma, sintetizou o bom de cada um dos dois anteriores. O peso e a velocidade do primeiro também não aparecem neste terceiro disco, mas Diogo Soares (voz), Carlos Gadelha (guitarra), Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria), os caras do grupo, deram também importância especial à parte musical das canções, mais até do que deram no primeiro; e as letras ainda continuam com a mesma leveza, profundidade e viagens imagéticas, até mais do que no segundo disco; incluindo um citação de um poema do concretista Haroldo de Campos numa das canções, "Morrenasce".

O amor e o intimismo também permanecem, mas é cantado e declamado de modo tão sutil e leve que não cansa nem deprime. O tema é tratado de forma que a alegria e a tristeza, o particular e o social, o bom e o ruim (tudo que faz parte real de qualquer relacionamento concreto) se misturam tão bem que o que se sente é tranquilidade e vontade de sentir ao ouvir as canções. Não há nelas sofrimento nem euforia, só leveza e tranquilidade, como se amar (e desamar) fosse tão comum como levantar e andar, como chegar e se sentar (e por ventura não o será mesmo?).

Aliás, do que as canções de amor dos anos 1980, felizmente, deixou pra trás e não faz falta alguma são o sofrimento e a euforia (ou ao a casualidade e o desapego), modos de falar de amor que acabaram por ficar a cargo dos sertanejos da vida.

O que mais me agrada na nova música pop do Brasil é esse modo de encarar tudo com naturalidade e, ainda assim, projetar sentimento em tudo. Delicadeza de arte pura.

Vale muito a pena ouvir.

Vai lá, e boa viagem!


REFERÊNCIAS

Los Porongas



domingo, 4 de setembro de 2016

CONVOQUE SEU BUDA

Convoque Seu Buda


"O clima tá tenso"

Em 2016 a gente tem mesmo é que convocar, cada um, o seu Buda; parece que é a única saída pra tanto retrocesso e tanta sensação de falta de movimento, e "Convoque Seu Buda" é melhor trilha pra se encontrar no meio da total confusão em que se é obrigado a viver sem saber direito por quê.

Terceiro álbum de estúdio de Kleber Cavalcante Gomes, nascido na Grande São Paulo em setembro de 1975, é diferente dos anteriores na forma e no tratamento, porém o conteúdo, contundente, continua sendo sobre as dificuldades enfrentadas pelo povo pobre da periferia de São Paulo, que não deve ser lá muito diferente daqueles de outras capitais.

Vindo do movimento Hip Hop da Capital do Estado, ainda faz Rap, ainda se diz rapper, mas com alguma diferença e muito mais brasilidade; menos pesado, mas não menos direto, que os primeiros discos, "Convoque Seu Buda" tem uma sonoridade, e vocalização, mais suave e suingada, com influências do Raggae, Samba, Soul, Repente e muito mais.

Desde "Nó na Orelha", disco anterior, Criolo já deixava sua criatividade flutuar sobre a lama da mesmice do Hip Hop ao introduzir instrumentos da música pop na construção dos arranjos das canções; com baixo, guitarra, metais e bateria, o Rap de Criolo deu um salto quântico pra fora do Grajaú em direção às Capitais do Brasil e do exterior.

O CD, que desde a capa mostra a riqueza, e aparente falta de nexo, de informações a que se propõe a dar o compositor a quem sem atreva a tentar decifrá-lo. Porém não é só pra quem pode, e sim pra quem sabe, pois foi disponibilizado, como o anterior, em muitos meios de comunicação pra quem quisesse acessar e baixar; tê-lo foi fácil, dominá-lo é que foi o negócio. Isso por que o Criolo continua não facilitando, do mesmo modo que ninguém facilita nada pra quem vem de baixo; as letras são carregadas de informações argumentativas e imagéticas, e neste disco a sonoridade vai no mesmo rumo; detalhes, detalhes e detalhes a aprimorar-lhe o prumo.


Como não devia deixar de ser, a primeira canção do CD é a que traz também o nome do álbum, "Convoque Seu Buda". Inicia, inteligentemente, com sons de passarinhos cantando (bucolismo) seguindo passos fortes e secos de alguém que corre (fim da calmaria) e finalizando com um grito de guerreiro oriental das artes marcais e o som de uma espada entrando a ação; só então é que a canção realmente começa, com batida forte, seca e lenta, e riffs de pianos elétricos em dissonância dando o tom e o andamento pro vocal que anuncia: "Convoque seu buda / O clima tá tenso", e continua argumentando com imagens que remetem à violência das ruas. A canção parece se referir a tentativa de expulsão dos moradores de rua do Centro de São Paulo pra possibilitar a exploração e especulação imobiliária, o que, segundo o eu-lírico, poderia acabar em tragédia, já que o problema não seria resolvido ao se tirar de lá os abandonados do sistema: estes teriam que ocupar outro lugar.

O refrão volta ao tema espiritualidade, como salvação, ao citar:

"Nin Jitsu, Oxalá, capoeira, jiu jitsu / Shiva, Ganesh, Zé Pilin dai equilíbrio / Ao trabalhador que corre atrás do pão / É humilhação demais que não cabe nesse refrão"
 (Criolo - Convoque seu Buda - Oloko Records; São Paulo, 2014)


Na verdade, o refrão mistura nos mesmos versos: violência (lutas marciais) e religião (santos e deuses), únicos protetores de quem se vê obrigado a lutar e resistir ao Estado.

Esta é uma das habilidades de composição de Criolo, unir objetos paradoxais o antagônicos aparentemente sem nexo, aprimorado e levado até o limite neste CD.


Na faixa dois, "Esquiva da Esgrima", o assunto é o mesmo: quem pode mais contra quem tem que seguir obedecendo, mas de um modo mais geral, não só contra aquele que está abandonado nas ruas do centro, mas contra todos que, por falta de alternativa, têm que seguir segurando o pouco que conseguem da riqueza do sistema e sem se importar com aqueles que nem isso podem ter, e não por que não se esforçaram, mas simplesmente por que não cabem todos. 

O refrão da música fala do que se perde ao ter que sobreviver no mundo do capital entre os que escolhem o crime e a violência pra também sobreviver:

"Hoje não tem boca pra se beijar 
Não tem alma pra se lavar 
Não tem vida pra se viver 
Mas tem dinheiro pra se contar 
De terno e gravata teu pai agradar 
Levar tua filha pro mundo perder 
É o céu da boca do inferno esperando você 
É o céu da boca do inferno esperando"
  (Criolo - Convoque seu Buda - Oloko Records; São Paulo, 2014)

Ou seja, ao entrar no mundo cão (do trabalho ou do crime) o sujeito se submete, pra ter o vil metal, a não ter humanidade.

Outra característica importante nas composições de Criolo é uso de trechos melodiosos cantados com voz aveludada e tranquila. Nos primeiros CDs, isso era feito em alguns trechos de cada canção, ou em canção inteira, "Amor em SP" (exceção à regra); mas neste o compositor abusou do recurso na maioria dos refrões, o que se mostrou ser uma bola muito dentro, pois, além de enfatizar com excelência a conclusão do eu-lírico, também funciona como meio de popularizar a canção, coisa que não deve ser menosprezada, já que o ideal de todo artista é ser reconhecido, sobretudo daquele que sente ter algo importante  a dizer.


Mas a parada genial do CD, no que diz respeito à letra, é faixa seguinte, "Cartão de Visita", em que o compositor lista produtos de requinte muito desejados por quem tem o poder aquisitivo compatível com tal consumo; porém, enquanto vai listando, vai também dando sermão em quem sente prazer com esse tipo de consumo sem se importar com o "indigente" que pede na rua o mínimo pra continuar vivo.

No refrão da canção, essa intenção é esclarecida mais diretamente:

"Acha que tá mamão, tá bom, tá uma festa
Menino no farol cê humilha e detesta
Acha que tá bom, né não, nem te afeta
Parcela no cartão essa gente indigesta
(Nem tudo que brilha é relíquia, nem joia)"
  (Criolo - Convoque seu Buda - Oloko Records; São Paulo, 2014)

A genialidade consiste em, com a ajuda de Tulipa Ruiz e Mano Brown, dar a entender que ele, o Criolo, também faz parte deste produto a ser consumido, pois, antes totalmente desconhecido, agora anda também na boca e nos ouvidos dos consumidores das classes mais altas, ávidos por novidades, de requinte; assim como ele também agora passa  a frequentar a mais "fina estirpe" com seu "Convoque Seu Buda" no bolso, CD de "Elegância no trato" como "Cartão de Visita" de quem "trabalha no buffet".

Outro indicativo de ser uma canção sobre a condição também do próprio compositor é a citação de uma entrevista a Lázaro Ramos onde Criolo tentava explicar sua ideia a respeito da falta de bom senso em classificar as pessoas em classes como fossem tipos de leite (A, B, C), fato que virou piada na internet: "A alma flutua, leite a criança quer beber / Lázaro, alguém nos ajude a entender". Quer dizer, o próprio Criolo também faria parte da "Classe C" emergente, devendo também tomar cuidado pra não cometer os mesmos erros da elite: achar que tá bom mesmo com muitos ainda na pior.


"Casa de papelão" usa da anáfora "olhos nos olhos" pra descrever um morador de rua que tem como amigos nada além de um cão e de um cachimbo. Parece mais uma vez falar do caso dos indigentes do centro de São Paulo que foram realocados para que pudesse se concretizar ali a especulação imobiliária.

O mais interessante é que a canção também pode ser entendida como um diálogo intertextual com pelo menos duas canções de Chico Buarque feitas na época da ditadura como meio de burlar a censura: "Olhos nos Olhos" e "Deus Lhe Pague"; "Olhos nos Olhos", obviamente por causa da anáfora usada e "Deus lhe Pague" por causa do andamento, do tom de quem segura algo que cresce e por causa do instrumento usado no arranjo principal (flugelhorn), inclusive com algumas frases que lembram muito aquelas gravadas no disco "Construção" de 1971.

Outro indicativo de intertextualidade é que os versos de Criolo remetem a um futuro arrependimento daqueles que ocupam agora, com violência, o as ruas e prédios usados pelos que não têm onde ficar, como se algum ato de vingança pudesse vir destes no futuro; e o tom vingativo também é muito claro nas canções aqui citadas de Chico Buarque.

Esse, aliás, é o tema mais recorrente nas composições de Criolo, nesse CD ainda mais: a vingança de quem hoje se humilha pra continuar a sobreviver e pra que poucos continuem com seu luxo e prazer.

Também é interessante que o compositor, ao cantar a letra, o tenha feito de modo que parecesse mais tranquilo e suave, como em "Cartão de Visita", na música completa, e não só no refrão. O que expressa calma e certeza absoluta no que é dito, além de tornar o enunciado mais direto e palatável. Mais uma vez lembro que ser palatável, pra um artista que sente ter algo a dizer, não significa ceder à imposição da mídia, e sim alcançar maior número de ouvintes: quando se fala pra um gueto, se usa a linguagem do gueto; quando é preciso, e possível, falar pra mais gente, se usa a linguagem da maioria.


A ironia escrachada (já falei o quanto gosto de quem a usa bem?)  é dominante em "Fermento Pra Massa", crônica sobre os entraves causados por uma greve de ônibus. A tal greve teria atrapalhado coisa tão simples quanto o ato de comer um pão fresco de manhã cedo por que, por causa da cidade parada, o padeiro não teria chegado a tempo no trabalho pra fazer os pães pra comunidade.

O ponto de vista (que é o ponto em questão) é que faz aqui a ironia, enquanto a maioria reclama do fato de não ter como ir e vir por conta da greve, o eu-lírico se conforma, apesar de não gostar de "tumulto", e diz que não acha "um insulto  manifestação / pra chegar um pão quentinho com todo respeito a cada cidadão", ou seja, mais uma vez, Criolo toca no assunto principal do disco: se não for igual pra todos, de nada vale ter alguma coisa; de quê adiantaria ter pão fresquinho se o motorista do ônibus não tiver condição de ter sua casa com dignidade, assim como o próprio padeiro também deseja?


Mudando um pouco de assunto,  "Pé de Breque" traz todo o clima rasta pra dar sermão naquele que só procura o subúrbio em busca de prazer e de um baseado, mas sem o menor respeito pelo que seu uso representa pra aqueles que o tem como algo sagrado e transcendental. O eu-lírico, no fim da canção, segue repetindo  "Eu sei o que você quer", de um modo que daria medo a qualquer um que não soubesse o que teria daquilo que buscasse, procurou a periferia pra ter prazer, mas não sabe exatamente o que vai encontrar. A partir do título também é possível perceber que este que procura a quebrada por um pouco de prazer barato é também o responsável pelo atraso do lugar e das pessoas que nele vivem.


"Pegue Pra Ela" parece um baião metalinguístico (Criolo, nos CDs anteriores, usava muio a metalinguagem ao se colocar como cantor de Rap nas letras), pois fala de uma nova canção que deve ser levada pra um pessoa específica, que, não embarcando, vai ficar de fora dessa "nave" que leva uma "multidão"; ao mesmo tempo, também faz uma auto crítica ao afirmar que "Toda cultura vira comércio / É o ponto de degradação", isto é, mesmo sabendo que alcançar um público maior é importante, reconhece que é também quando começa a perder sua essência de artista de rua. Nos primeiros CDs, Criolo não se cansava de mostrar o quanto o Rap tinha sido algo fundamental em sua vida: como salvação e como atuação. Nessa nova metalinguagem pode haver um receio de que a essência do rapper se perca no processo industrial, feito ao gosto da geleia geral.


Em "Plano de Vôo ",  junto com Síntese, Criolo volta ao Rap 'de raiz', abusando das imagens misturadas dispostas a dar sentido a algo que, desde o início da canção, o eu-lírico afirma não conseguir explicar; uma colagem de muitos recortes da vida do suburbano da cidade grande, que é feita de recortes muitas vezes antagônicos em uma estranha harmonia. Parece sem nexo e sem sentido, mas só quem pega até quatro ônibus todos os dias pra trabalhar na Grande São Paulo entende o que é conviver e compreender as milhões de informações que invadem aqueles que são obrigados a viver com o que sobra do que o capital produz.


O Rap continua em "Duas de Cinco" cantando de novo a diferença entre quem aprende a viver com  o desprezo e com a violência desde muito cedo e quem vê tudo do conforto do condomínio através da TV e só conhece a realidade dos videogames. Aqui há também uma rápida citação do ato de fazer Rap como salvação dessa miséria: "Pra cada rap escrito / Uma alma que se salva".


"Fio De Prumo (Padê Onã)", que lembra muito um ponto de terreiro de Candomblé, usa da Língua Iorubá pra avisar que se trata de um hino de saudação e de luta. Com muitas imagens metafóricas ,mostra a cidade como o mal a ser evitado e o bem a ser conquistado. Em uma imagem bastante acertada, o autor diz: "A cidade, um cronista", ou seja, a cidade é que constrói suas crônicas, como poderia um cronista falar de outra coisa senão daquilo que a cidade lhe mostra? Como poderia o compositor de Rap de São Paulo falar de outra coisa que não fosse de desigualdade e do descaso vivenciado por todos em qualquer canto da cidade.


Enfim, "Convoque seu buda", que "o clima tá tenso". A cidade que produziu a riqueza e a ordem também produziu o abandonado e o caos, mas quer se livrar deles, por qualquer meio possível que seja rápido e barato, contudo essa solução final vai cobrar seu preço mais tarde, coitado daquele que agora ri, "comédia, vai chorar".



REFERÊNCIA


Criolo 



quinta-feira, 21 de abril de 2016

Zach Condon um dia resolveu sair de Santa Fé, Novo México, onde nasceu, pra conhecer novos ares: foi pra o Leste Europeu estudar música. Lá tomou contato com as raízes do Folk (Música Cigana e elementos Sefardita) tocados ainda com instrumentos tradicionais (acordeão, metais e percussão), mas não foi só, também presenciou as dificuldades do povo que saia do regime comunista, apesar de já serem os anos 2000, e tentava se adaptar ao livre mercado.

Santa Fé, no Novo México, apesar de capital do Estado, não é o que se pode chamar de uma cidade de grande importância para o cenário Norte Americano, muito menos mundial (situação bastante semelhante ao que encontrou nas cidades que conheceu no Velho Mundo); além disso, é também uma excentricidade na região desértica em que se encontra, pois é a única cidade, nas cercanias, em altitude elevada, isso faz dela também única por ter o clima bem próximo daquele de países europeus, sobretudo os distante do Atlântico ou do Mediterrâneo. A cidade, antes da invasão caucasiana, era povoada por índios Hopi, civilização também fora do comum na América do Norte, que habitavam os famosos “Pueblo”, habitações construídas com armação e argamassa, muito juntas, e até umas sobre as outras. Os primeiros brancos a chegarem foram os espanhóis, que, mais tarde, se tornaram mexicanos, por isso, antes de um dos estados dos EUA, foi uma das províncias mexicanas, passando a pertencer aos Norte Americanos depois de um acordo que pôs fim à Revolução do Texas; logo, trata-se, desde muito cedo, de uma região multicultural; outra característica de Santa Fé e essencial fonte de renda para a cidade: Arte (regional e contemporânea).

O lugar recebe visitantes de todo o país a fim de conhecer os “Pueblo” e a arte indígena; porém a cidade também é um importante polo de produção de arte contemporânea e regional. Na música popular, não se pode deixar de notar a forte influência dos naipes de metal e das cordas dos chamados Mariachis, tão comuns no México Rural.

Aliás, este é um dos fatos mais curiosos nas composições de Zach Condon e sua Orquestra, muitos dos arranjos lembram e muito esse som característico do interior mexicano (mais tarde, num outro trabalho, o grupo compôs durante e depois de uma temporada no país latino vizinho); só fica difícil saber se se essa semelhança foi um achado do líder da banda durante sua estadia em terras europeias ou se ele pôs o pé na estrada justamente por que sabia que lá se encontrava o que ele buscava: o ponto inicial da música folclórica do lugar em que nasceu.

Os dois primeiros álbuns do bando, “Gulag Orkestar” (9 de maio de 2006) e “The Flying Club Cup” (9 de outubro de 2007), são os melhores (gosto pessoal) principalmente, sobretudo o primeiro, por terem um ar bem artesanal: instrumentos acústicos e tradicionais e mixagem quase inexistente; em “Gulag Orkestar” algumas canções têm a vocalização quase parecendo um improviso de letra sobre uma melodia concebida. Aliás, melodia e vocalizações são o ponto chave das composições: são músicas feitas para cantarolar, bem melódicas e com letras curtas, fáceis de memorizar, lembram muito as tradicionais Chansons francesas, que se ouve uma vez e já se sai cantando mesmo sem saber muito a letra.

Por falar em letra, pode-se dizer que Zach não é um escritor nato, não é o seu forte o poema metrificado, aquele que cabe certinho na música, tanto que são poemas curtos, muitas vezes, em algumas canções, trocados por larariralá pelo próprio interprete, quer dizer, o importante mesmo é a estrutura melódica, feita pro sujeito sair assobiando pelos cantos. Contudo, isso não quer dizer que sejam superficiais, ao contrário, são extremamente profundas, sentimentais e conscientizadoras, tem muito de escola simbolista nelas: no lugar de musas, cidades ou paisagens; no lugar de amigos ou inimigos, fenômenos naturais ou situações atípicas, no lugar de sentimentos ou desejos, entorpecentes ou prazeres de banquete, etc. As letras das canções dos dois primeiros discos têm um eu-lírico bem à vontade com um ambiente de decadência material onde parece que tudo desmorona, não há mais urgência em nada, as coisas são envelhecidas e os amores são desimportantes. O eu-lírico parece não se importar se um amor começa, se tem continuidade ou se termina, ele vem, fica ou vai quando e como quer, como se fizesse parte de algo natural, que não se pode controlar, nem querer, nem não querer: se chega, é bom; se fica, é bom; se vai, é bom porque esteve. Parece com algo de retomada do amor natural que existia antes da romanização e da cristianização da cultura, onde, no primeiro caso, se ama pra obter prazer e/ou riqueza e, no segundo, se ama somente se for pra manter laços de família e procriar a espécie.

Tudo nas canções, apesar de serem agradáveis aos ouvidos, lembra a melancolia, as letras, que soam como decadentes e sem força expressiva, e as construções melódicas, que buscam sempre repouso nos tons mais graves; a princípio, podem até parecer alegres (como pensei), por manterem, quase sempre, notas altas; porém essas notas altas são alcançadas a partir de uma nota bem baixa, nota essa sempre buscada como repouso pelo cantor; então, numa leitura mais atenta, se percebe o efeito melancólico por trás de uma aparente alegria, que é justamente a naturalidade dos acontecimentos que o eu-lírico tenta expressar: não tenho mais, mas estou satisfeito por ter tido, ou,  a vida é assim mesmo.

Tudo nas canções também lembra que estamos rápidos e ligados demais, mas de um modo muito sutil: desligaram tudo e se tornaram extremamente acústicos, com instrumentos feitos para serem acústicos e móveis (metais, cordas e batuques); diminuíram muito o andamento, pros dias atuais, soam quase como marchas fúnebres de tão lentas; sou ciclista por prazer desde menino (1984) e gosto de pedalar e ouvir música enquanto penso em muitas coisas, inclusive textos; fato é que, pedalando, quando começam as canções de “Beirut” no player, o ritmo diminui drasticamente, isso por causa do andamento das musicas que são muito mais lentas do que aquelas que costumamos ouvir hoje em dia, quer dizer, em pleno Século XXI, nos lembram de que estamos indo rápido demais e ligados demais, cantando e tocando sobre as “Cidades Mortas” do Leste Europeu, misturando Valsa e Mariachi.

A partir do terceiro disco, de quatro, fora os EPs, “The Rip Tide” (Agosto de 2011), Condon e sua trupe voltam a flertar com a música eletrônica e as canções de amor pop e up, com um andamento um pouco mais ligeiro que os anteriores, mas ainda bem mais lento que seus contemporâneos; Zach, antes de sua viagem pela Europa, tocava e cantava em grupos com influência eletrônica e lo-fi. Passa a cantar mais sobre os lugares próximos de sua terra natal, antes deste LP, haviam lançado um EP, “March of the Zapotec/Holland " (17 de Fevereiro de 2009) onde colocaram suas impressões sobre o México e os Países Baixos, outra viagem; isso se deu depois que tiveram uma experiência não muito agradável durante uma turnê pelo Brasil: o líder do grupo não estava satisfeito com a qualidade das apresentações e teve um tímpano perfurado em uma delas inclusive; a impressão que se tem desse disco é a de que seria quase impossível repetir o clima encontrado para as composições dos primeiros discos, já que foram feitos por iniciativa própria e quase despretensiosa, diferentemente do que se veria a partir daqui: viagens a trabalho; assim, o prazer e a quase despretensão viriam do fato de estar em casa, seria impossível falar de sentimentos no meio do trabalho.

“No, I don't want to be there for no one I'd stay here”
(Port Of Call, Beirut - The Rip Tide - Pompeii Records; EUA, agosto de 2011)

Em “No No No” (setembro de 2015), quarto LP, como já era esperado, o grupo abandona de vez os instrumentos acústicos compondo um álbum inteiramente eletrônico, tendo como instrumento principal o piano elétrico. O álbum foi muito bem recebido pela crítica, apesar da completa guinada na direção dos rumos estéticos da banda, por conta do trabalho muito bem acabado, um dos melhores das bandas pop; as canções de “No No No” deixam o Indie bem de lado e se aproximam ainda mais das levadas pop; mas isso não seria pejorativo, afinal, fizeram um ótimo trabalho. O que também se passa a notar a partir do terceiro disco, e que se refina mais nesta quarta obra, são as composições dos poemas, mais extensos e perfeitamente metrificados, caindo como uma luva nas melodias; porém, a profundidade temática, que já começava a decair no disco anterior, cai ainda mais neste LP, talvez um fato natural pra poética de um autor que, baseado em viagens e lugares, passa a cantar o estabelecimento; algo como: de que modo um poeta errante pode continuar poeta ao se estabelecer? Fato explicado pelo próprio Zach ao dizer que agora é um homem casado, com um cão e um gato no quintal, isto é, só se poderia esperar dele agora a lírica cotidiana. Mesmo assim o disco, que aumentou ainda mais um pouco o andamento geral das canções (quase Século XXI), é capaz de derrubar qualquer lançamento pop de seu tempo, por cuidado estético e ideológico.



REFERÊNCIA 
 
Beirut
Wikipédia - Beirut
Beirut –LETRAS.MUS.BR
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