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sábado, 10 de dezembro de 2016

ALUGA-SE




1980

O ano era 1980. Depois do grande sucesso de "Há Dez Mil Anos Atrás" (1976), dos razoavelmente populares "Raul Rock Seixas" e "O Dia Em Que a Terra Parou" (ambos de 1977), aconteceram  "Mata Virgem" e "Por Quem os Sinos Dobram" em 78 e 79, com pouquíssima repercussão na crítica e no público; eram os primeiros com ausência total do antigo parceiro Paulo Coelho e aqueles em que Raul mais se distancia do bom e velho Rock'n'Roll para produzir discos mais conceituais e com letras mais profundas e elaboradas. Esse Raul Seixas mais "cabeça" do que antes não agradou tanto; e a WEA, gravadora e distribuidora da obra de Raul, decidiu cancelar o contrato com o Maluco Beleza. Assim, Raul foi bater na porta da antiga gravadora em que trabalhava como produtor musical, e que não lhe abrira espaço pra trabalhar como compositor e interprete, a CBS, pra lhe propor abertura de contrato. Conseguiu. No mesmo ano seria lançado "Abre-te Sésamo" contendo "Aluga-se" e "Rock das Aranhas", canções que caíram no gosto do público, e impulsionaram a venda do LP, mas que tiveram execução proibida pela censura: a primeira, por ser explícita quanto à opinião do compositor sobre o política econômica vigente; a segunda, por ser explicita quanto ao que o mesmo pensava a respeito da homossexualidade feminina (com detalhes metafóricos bem fáceis de entender).

O ano era 1980 e Reagan era eleito nos EUA, dando início ao endurecimento da Guerra Fria, da Guerra Contra o Narcotráfico, da Guerra Contra os Movimentos Populares e da Guerra pela Moral e pelos Bons Costumes. Reagan, com apoio da CIA, traria às vistas a infiltração e a influência do governo estadunidense em todos os países da América Latina, enviando tropas, inclusive, para grande parte deles, além de ajuda financeira e especializada em repressão para outros, como o Brasil por exemplo.

O ano era 1980. John Lennon foi assassinado. Vinícius de Moraes morreu dum mal súbito. O enlatado "Bozo" estreou no Brasil, programa que exibiria, 3 ou 4 anos depois, a versão brasileira para "El Chavo del Ocho", programa cancelado no México nesse mesmo 1980.

Em 1980, o Papa João Paulo II desembarca no Brasil para sua primeira visita ao país.

Em 1980, são fundados: PDS, PMDB e PT, principais partidos políticos no Brasil até meados dos anos 1990.

Era 1980 e Raul Seixas já havia sacado o que a elite pequeno burguesa do país pretendia como projeto econômico e social para o Estado brasileiro: "alugar o Brasil".


"Aluga-se"

A canção começa com batida forte e tribal na bateria do bom e velho Rock'n'Roll chamando a  riff e a introdução da guitarra, com overdrive bem distorcido; é pra deixar qualquer ouvido muito atento, pra levantar do chão aquele que por ventura ainda esteja deitado sobre sua falta de sentido e perspectiva. Estando o ouvinte já atento, o eu-lírico, genialmente, passa a afirmar que tem uma "solução" pros males do "povo":

"A solução pro nosso povo
Eu vou dá"
(Raul Seixas - Abre-te Sésamo - CBS Discos; RJ, 1980)

E continua mostrando as vantagens antes de citar a tal "solução" salvadora:

"Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar"
 (Raul Seixas - Abre-te Sésamo - CBS Discos; RJ, 1980)


Só então, no último verso da primeira estrofe, é que se ouve aquilo que se deve fazer pra sair da pior:

"A solução é alugar o Brasil!..."
 (Raul Seixas - Abre-te Sésamo - CBS Discos; RJ, 1980)

Depois disso, entra o refrão dizendo mais das vantagens e facilidades de "alugar o Brasil" "pros gringo entrar":

"Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar"
 (Raul Seixas - Abre-te Sésamo - CBS Discos; RJ, 1980)


Ou seja, ainda se poderá viver neste país exuberante e farto de delícias deixando os estrangeiros ficarem também por aqui a pagarem um quinhão por isso. O que é hoje bem verdade se colocarmos o discurso desse eu-lírico na voz desses que estão aqui a "vender" bem barato o povo, o minério, o chão e a paisagem do Brasil. Mas, veja bem, este "negócio bom" é só vantajoso pra elite que se põe a "representar" o território e a nação, sobrando, para o povo, trabalhar muito, até perder a vitalidade, e receber muito pouco em troca.

Na segunda estrofe, a argumentação sobre as vantagens continua ao citar as belezas naturais, que seriam ótimos atrativos para o estrangeiro disposto a gastar seus preciosos dólares por isso:

"Os estrangeiros
Eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia
É o jardim do quintal
E o dólar deles
Paga o nosso mingau..."
 (Raul Seixas - Abre-te Sésamo - CBS Discos; RJ, 1980)

E segue a repetição do refrão até o fim da música pra enfatizar as maravilhas de se fazer nada e se ter tudo ainda assim; mole , mole, vivendo de dividendos e lucros no Brasil. Eis o projeto de Estado que vamos vendo realizado no país por quem tacha de vagabundos artistas, trabalhadores rurais, aposentados, professores, líderes de causas sociais, e tantos outros que lutam por igualdade e justiça.

Há mais de trinta anos, Raul Seixas já percebera o que hoje vem se concretizando no Brasil: uma elite egoísta e burra fazendo o possível pra se dar bem às custas de um povo sofrido e sem representação e de um território imenso e desprotegido. Tudo isso foi cantado por ele na forma mais bufa e irônica que alguém pode conceber, especialidade de Raul.

Será que o fim dessa canção será mesmo trágica?


REFERÊNCIA


1980



"Abre-te Sésamo"



"Aluga-se"


domingo, 27 de novembro de 2016

ALUCINAÇÃO

Alucinação



E A COMÉDIA É TAMBÉM DIVINA

Em 1976, os brasileiros discordantes de 1968 viram amenizadas as perseguições que lhes impuseram os concordantes. Em 1976, o planeta se dividia entre nós e eles na guerra fria. Em 1976, percebia-se claramente que a democracia e a liberdade social não passavam de falácias. Em 1976, um cearense de Sobral não se interessava por "nenhuma teoria": "amar e mudar as coisas" era o que lhe interessava mais.

Porém, pra Belchior, estudante de Filosofia, não bastava outro regime político ou econômico, não bastava a realidade ou a falta dela, não bastava a destruição ou a conservação de tudo. Só lhe interessava a mudança interna do homem, que, amando, mudaria a si e ao próximo.

Desde menino, Belchior respirava arte: seu pai era saxofonista e a mãe, cantora de coro de igreja; também tinha tios poetas e boêmios; assim se tornou cantador de feira e poeta repentista na infância, até mudar-se pra Fortaleza, a fim de estudar Filosofia. Mas nunca abandonou a música: mesmo estudante, se apresentava em alguns festivais de música pelo nordeste que, por causa do sucesso, lhe incentivaram a deixar os estudos e se dedicar à carreira artística, o que o acabou levando ao Rio de Janeiro, como tantos outros de tantas outras regiões do Brasil, para que levasse a frente sua intenção de viver da música que fazia. E conseguiu: "Na Hora Do Almoço" venceu o Festival Universitário da MPB de 1971, também gravada com sua interpretação em um compacto do selo Copacabana.

No ano seguinte, Elis Regina gravou "Mucuripe", composição dele com Fagner, facilitando seu acesso a uma maior parte da mídia e dos ouvintes. Lançou um LP em 1974, "Mote e Glosa", com muitas experimentações poéticas e sonoras, mas que não caiu no gosto popular (ainda hoje é pouco conhecido). O sucesso só veio mesmo em 1976 com "Alucinação", em que abandonou a experimentação de formas e se esmerou na profundidade temática das letras das canções, com levadas bem mais populares, bem mais próximas do Folk e do Rock que do Brasil ou do Nordeste.

Mesmo com roupagem Pop o disco continha pretensões ousadas, o que faria dele uma das partes mais bem sucedidas do meio cult de seu e de todos os tempos, mesmo sem falar em política, tema esse, aliás, que envelhece junto com as ideologias. Mais que isso, Belchior pretendia ser 'eterno' ao falar da eterna tragédia de ser humano e social.

A miséria e a angústia de viver, além de servirem para temas de suas canções, também o levaram a 'desaparecer' do mercado fonográfico, dos palcos e do convívio com amigos e familiares em 2009. Até hoje recluso, e procurado por dívidas várias, não se sabe bem o porquê de seu sumiço e de sua recusa em voltar à 'realidade'. Essa tragédia só nos faz sentindo se levarmos em conta a nova paixão, que o arrancou de esposa antiga e filhos, e o antigo projeto (traduzir "A Divina Comédia" do original para uma linguagem mais popular do Português) que o impossibilita de se apresentar para novos fãs e voltar ao convívio social normal.

Nessa história, o que mais espanta é o isolamento total: Belchior não fala, não vê e não visita amigos nem parentes, ou pelo menos estes se negam a dizer que ele os faz; talvez por causa de algumas dívidas que o abandono da vida social lhe teriam imposto sem que este pudesse arcar com elas: desde 2009 ele não se apresenta em público (shows e apresentações são a maior fonte de renda para músicos).

O fato é que Belchior, ao menos para este simples cronista, parece querer ir ainda mais além da política, da economia e das relações: preferiu ser ainda mais humano e cantar "A Divina Comédia" no lugar de se ver preso a pequenos e imóveis círculos de poder. Enquanto alguns de seus contemporâneos usavam a música e a arte pra lutar por melhorias sociais ou simplesmente pra ter um quinhão a mais do muito que lhes é negado, ele quis mostrar que basta ser humano e social pra ser miserável; e, agora, enquanto seus contemporâneos se aposentam, morrem ou fazem parte do mainstream, ele se lança em sua jornada final, coerente com sua trajetória, que será seu legado. Em vez de descansar em Paris ou viver de migalhas dos meios de comunicação continua sua busca e descoberta, que são as únicas coisas que realmente fazem o homem humano.


ALUCINAÇÃO

O título é "Alucinação", do disco e de uma das faixas, mas não é disso que trata a obra, exatamente o oposto.

Nos tempos em que se anunciava: "o sonho acabou", se via aqueles que optavam pelo desbunde vazio (festas intermináveis com luxo e poder) e aqueles que não conseguiam sair da rebordosa e se negavam a acreditar que o "dedo em V" tinha dado em nada nas ruas, nas moradas e nos bailes.

Contudo, Belchior, alheio a modismos, atento a movimentos que via e analisava à margem dos marginais, percebia não ser nem uma nem outra a opção ideal a ser seguida. Das alucinações dos anos sessenta, lhe interessava só a realidade posta e ainda mais dura e fria que lhe sobrava no meio da década de 1970. E belchior estava mesmo no meio, entrando na grande mídia, dominada por grandes artistas intelectuais que iniciaram sua carreira dez anos antes e por novos artistas muito popularescos e bastante populares, se via a meio termo entre o brega e filosófico, amando, nas canções, amores reais e pensando, nas entrelinhas, pensamentos concretos: os tempos de alucinação não deram em nada e não interessavam mais; mundo ideal, amor ideal eram demasiado vagos e inúteis em 1976. Era tempo de viver a realidade e amar o possível.

O disco traz na primeira faixa a canção que ficaria como marca registrada desse cantor de voz grave e seca: "Apenas um rapaz latino-americano". Canção inteligentíssima e ácida, mostra um pequeno resumo da vida deste brasileiro que tenta se propôr àqueles que ainda sonhavam um novo mundo e àqueles que já não esperavam nada dele: ambos de olhos bem fechados. Esse afã por se explicar e se colocar como indivíduo com marcas e com história, aliás, é recorrente no cancioneiro de Belchior, um compositor que levava o "conhece a ti mesmo" a sério e fazia questão de mostrar isso como uma forma de se colocar no meio: algumas canções deste disco, e outras nos trabalhos seguintes, retomavam esse tema, com a mesma genialidade.

Em "Apenas um rapaz latino-americano", contundentemente, o eu-lírico se põe como um simples cantor periférico (da periferia da periferia), sem muito poder, ou qualidade, pra quem sonha com salvadores estrangeiros. Mesmo assim, segundo a canção, este teria um ponto de vista seu e uma ideia sua: " Eu sou apenas um rapaz / Latino-Americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes / E vindo do interior / Mas sei que nada é divino / Nada, nada é maravilhoso / Nada, nada é secreto / Nada, nada é misterioso, não".

A canção diz que o brasileiro eu-lírico, infelizmente, é só um cantor vindo do interior, trazendo canções e palavras como "navalhas", afirmação retomada depois, noutras canções, ainda no mesmo LP.


"Velha roupa colorida" , assim como "Apenas um rapaz latino-americano", ficou, antes e mais, famosa na voz de Elis Regina, interprete especializada em "achar" grandes novos talentos da MPB. A canção tenta mostrar o quanto os sonhos de mudança para um mundo mais igual e mais fraterno estavam já ultrapassados e, agora, inúteis: "... eu não posso deixar de dizer, meu amigo / Que uma nova mudança em breve vai acontecer / E o que há algum tempo era jovem novo / Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer". E com a navalha ainda mais afiada e cortando ainda mais profundo, Belchior cita Allan Poe pra explicar que a chance de vitória da Geração Paz e Amor havia passado, sem conclusão e sem possibilidade de retomada; "Assum-preto, pássaro preto, black bird, me responde, tudo já ficou atrás / Haven never haven never haven never haven never haven / Black bird, pássaro preto, pássaro preto, me responde / O passado nunca mais". A oportunidade de mundo novo passara, e nunca mais; agora a realidade é que era concreta.


Outra, também, mais de Elis do que de qualquer outro, "Como nossos pais", é genial e retoma o passado como tema em contraposição ao presente, e de como o eu-lirico se coloca entre ambos; mostra de novo a juventude como 'perdedora' que sonhou, que tentou, que fez, mas que não conseguiu muito mais do que aquilo que seus próprios pais conseguiram: viver do passado de promessas no presente de decepções, e negando a nova juventude que chega com seus novos sonhos e novos planos de mundo melhor; é o "sinal fechado" pra aqueles que trazem o novo.


"Sujeito de sorte" se achava o eu-lírico por, mais uma vez, no presente, ser "muito moço" e, apesar disso, muito vivo, pois não vai "sofrer no passado". Parece ainda o mesmo tema opondo passado e presente, antigo e novo, morte e juventude: o jovem do ano passado está morto, mas o jovem do presente, "sujeito de sorte", não morre, sobretudo se insistir em estar no presente.


E a juventude continua a lutar em "Como o diabo gosta"; ao pregar a desobediência ao estabelecido, o eu-lírico põe na mesa a face nua da juventude - se opôr ao que lhe impede de ser:

" Não quero regra nem nada
Tudo tá como o diabo gosta, tá,
Já tenho este peso, que me fere as costas,
e não vou, eu mesmo, atar minha mão.
O que transforma o velho no novo
bendito fruto do povo será.
E a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter;
é nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobedecer.
Nunca reverenciar."
(BELCHIOR - Alucinação - PolyGram; Rio de Janeiro, 1976)


Falando mais claramente, em "Alucinação" a quebra com o passado, do "dedo em V" e do "cabelo ao vento", é reafirmada com mais palavras, com mais imagens e com mais realidade: "Eu não estou interessado / Em nenhuma teoria / Nem nessas coisas do Oriente / Romances astrais / A minha alucinação / É suportar o dia-a-dia / E meu delírio / É a experiência / Com coisas reais".

Pra completar sua argumentação, o eu-lírico, na segunda parte da canção, descreve a realidade urbana do Brasil em 1976, que era a mesma desde os 1960, e que não havia mudado com os sonhos, com as fantasias e com as teorias da juventude daquele tempo. O que interessava era amar e mudar essa realidade, léguas distante de qualquer sonho:

"Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas"
(BELCHIOR - Alucinação - PolyGram; Rio de Janeiro, 1976)

Mas parece que Belchior quis mostrar o outro lado desta moeda das sobreposições, tendo estado, inclusive, no lado oposto. O eu-lírico de "Não Leve Flores" já inicia com uma ordem que mais soa como um contra-ataque: "Não cante vitória muito cedo, não. / Nem leve flores para a cova do inimigo, / que as lágrimas do jovem / são fortes como um segredo: / podem fazer renascer um mal antigo". 

Como um aviso de vingança, destaca que os jovens, derrotados, ainda podem "renascer". Desse modo, há sugestão de um conhecimento e uma participação do "jovem" de 1976 nas mudanças que os de 1966 sonharam e não conquistaram, por força do antigo e, como era argumentado até agora, da nova juventude, diferente e mais forte que a anterior. 

Assim, o eu-lírico, que cantava e celebrava o novo que avançava sobre o antigo, derrotado, conheceria também o lado perdedor, como se tivesse feito parte dele, e esperasse algum movimento que o mostrasse tão vivo e ativo quanto antes.

"Tudo poderia ter mudado, sim,pelo trabalho que fizemos - tu e eu.
Mas o dinheiro é cruel
e um vento forte levou os amigos
para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos,
e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não.
(...)
Tenho falado à minha garota:
- Meu bem, é difícil saber o que acontecerá.
Mas eu agradeço ao tempo.
O inimigo eu já conheço.
Sei seu nome, sei seu rosto, residência e endereço.
A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá.
A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá."
(BELCHIOR - Alucinação - PolyGram; Rio de Janeiro, 1976)

Tem-se a impressão de que o jovem cantado pelo eu-lírico, no disco como um todo, fez parte também da juventude que sonhou e que foi vencida pelo velho inimigo: o tempo; e, embora  assumindo os ideais da nova juventude, da qual também participa, parece que ainda espera que o sonho derrotado ressurja e refaça, com acerto, o que não pôde em seu tempo. Algo como: entendo e luto por meu tempo, mas as certezas do passado eram mais.


Paradoxalmente ao dito na canção anterior, "A palo seco"  retoma o discurso de quem veio pra sobrepor e substituir aqueles que sonharam e não realizaram. 

Canção clássica, e genial, retoma inclusive a ideia de palavras serem feitas armas e não conforto ou idealizações: "eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês".

Inicia como um grito de revolta e de luta, como em "Não leve flores", mas agora cantada por quem, no lugar de divagar mundos possíveis, abria os olhos e via o desespero de quem vivia a realidade: "Se você vier me perguntar por onde andei / No tempo em que você sonhava / De olhos abertos, lhe direi: / Amigo, eu me desesperava".

Mais adiante, retoma o fato, consequente, de ser brasileiro e ter que lutar em seu tempo, o mesmo já cantado em "Apenas um rapaz latino-americano": "Tenho vinte e cinco anos / De sonho e de sangue / E de América do Sul / Por força deste destino / Um tango argentino / Me vai bem melhor que um blues".

Argumentação intercalada pela conclusão mais conhecida da canção e do compositor: 

"Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês"
(BELCHIOR - Alucinação - PolyGram; Rio de Janeiro, 1976)

Em que se coloca, mais uma vez, em seu tempo, aquele a que deve obedecer.


Ainda retomando o poder da argumentação autobiográfica de "Apenas um rapaz latino-americano", presente também, em menor parte, em "A palo seco" e "Como nossos pais", a penúltima canção do disco, "Fotografia 3x4", vai contando a saga do migrante nordestino que vem tentar a vida no Sul, sentindo as estranhezas que lhe sucedem: estranho para o lugar, estranho para a gente; estranho o lugar, estranha a gente. 

Na canção, o eu-lírico se coloca também como estranho e divergente do eu-lírico presente na canção de outro compositor, também migrante, mas com uma história diferente: Caetano Veloso, diferentemente de Belchior, teria chegado ao Rio já bem indicado e bem instalado; ao contrário, Belchior teria vindo por conta própria e tendo que convencer colegas, amigos e artistas desde o zero, sem indicações, diplomas ou prêmios:

"Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua"

(Belchior - Alucinação - PolyGram; Rio de Janeiro, 1976)

Parte deste verso é citação de outro de "Alegria, Alegria", canção de Caetano que, como a de Belchior, fala de alguém que se depara com as novidades encontradas na grande cidade, porém, com uma atitude bem diferente, a de quem gosta, aceita e quer:

"Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou."
(VELOSO, Caetano - Caetano Veloso - Philips Records; Rio de Janeiro, 1968)

Este é um recurso semântico, aliás, bastante usado por Belchior: reforçar seus argumentos, ou contra-argumentos, com citações literais de seus autores preferidos ou de autores contemporâneos seus. O que, particularmente, me agrada muito (costumo avaliar meu interlocutor a partir de quem este cita ou lembra).

Enquanto o eu-lírico da canção vai se colocando como alguém que é muito próximo do povo simples e batalhador (que vive a realidade), em oposição àqueles que vencem por já estarem entre os vencedores, faz questão de, pra reafirmar a coerência discursiva do álbum, ter de si a ideia de novidade a ser posta, ou proposta: "A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia / E pela dor eu descobri o poder da alegria / E a certeza de que tenho coisas novas / Coisas novas pra dizer".

Mas como a autobiografia aqui é o tema argumentativo mais relevante, aquele que será usado pra validar a conclusão do discurso do eu-lírico, este trecho não é colocado na força do final da canção, apenas um pouco antes do final. No fim da letra, o eu-lírico repete muitas vezes a afirmação de que é como aquele que o ouve: que sofre, que luta e que segue em frente sem poder contar com muita ajuda:

"A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do Norte
Que no Sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu sou como você
Como você"
(BELCHIOR - Alucinação - PolyGram; Rio de Janeiro, 1976)

Seria já um Gran Finale para o disco (levando em conta esta minha humilde ideia de bom disco): argumentou bem, mostrou as contra-argumentações (colocou-se até do outro lado, expondo sua empatia humana) e fechou muito bem, retomando argumentos e formas já postas, porém com novas informações, incluindo o verdadeiro propósito do discurso: a tese de o eu-lírico ser como aquele que o ouve; argumentação clássica.

Mas não. Sendo Belchior, não ficaria só assim. Grande intelectual, teria ainda um epílogo pra esclarecer-se.

"Antes do fim" , a última, se despede diretamente do ouvinte lhe desejando aquilo que entendia como bem eterno, e moderno: "que fiquem sempre jovens / e tenham as mãos limpas / e aprendam o delírio com coisas reais".

Na segunda parte ainda pede pra não ser temido por quem o ouve, já que "Viver é que é o grande perigo".
Uma singela despedida cheia de profunda sabedoria, para um simples disco repleto de complexa verdade: "o novo sempre vem".


REFERÊNCIA


BELCHIOR



ESTADÃO 

ÉPOCA 





ÁLBUM






sábado, 8 de outubro de 2016

O MAL (Juliana Cortes)



                          O MAL


PRA OUVIR E SENTIR E REFLETIR


Juliana Cortes  é nome do bom vento que vem das bandas do Sul, aquele que traz frescor às noites quentes e movimento brando às águas mansas.

Misturando só o que vale a pena de tudo que pode fazer parte de um objeto musical, faz qualquer ouvido, antes maltratado pelo que a grande mídia teima em nos fazer engolir, entrar no modo "sou feliz porque existo" tamanho o capricho em cada detalhe, por menor que seja, que a moça e seus influentes companheiros põem no produto final: o CD, se é que se pode chamá-lo assim, melhor seria chamá-lo obra prima.

A própria Juliana diz que o gênero das canções que faz e interpreta se encaixa em Word Music ou Jazz, mas isso é pura conveniência, pois é música e ponto, nela cabendo o mesmo Jazz, a milonga, um quezinho de Rock e Pop, os sotaques tantos da música do Brasil e tantas outras modas que deixo pro leitor/ouvinte identificar: a surpresa ainda é a melhor forma de sedução.

A curitibana gravou seu primeiro disco em 2013 (Invento), mas, segundo ela mesma, desde menina já estava no meio musical: cantando em corais, participando da gravação de discos infantis, se enturmando com a galera da pesada no ramo; tanto que acabou cruzando com Vitor Ramil, um dos expoentes da música brasileira que vem sendo feita no Sul do país desde a virada do milênio; aliás, "Longe das Capitais", o Sul nos tem presenteado com música pra lá de refinada há um bom tempo, e o sabor só tem melhorado com o passar dos tempos.

O encontro com Vitor Ramil (além do encontro com Moska, Dante Ozzeti, entre outros) só se deu no segundo trabalho (Gris - 2016), mas, por conta, já estudava sua "Estética do frio" para compôr a estrutura de suas canções e orientar sua carreira, valendo até uma parceria em "Gris" com poema de Paulo Leminski musicado por Ramil.

A letra, aliás, é também ponto fortíssimo nas canções de ambos os discos, impossível eleger o que, no trabalho de Juliana, se destacaria mais. Enquanto a composição harmônica e rítmica sossega, tranquiliza faz do ouvinte realmente ouvinte, a letra o (e)leva pro lugar onde a beleza da lógica e da novidade residem. Prestar atenção no que diz o texto das canções é iniciar reflexões e transcendências, às vezes lado a lado, às vezes não.

"Filosofando" (Invento - 2013), por exemplo, traz, na letra, a beleza que transcende e a lógica que ilumina, contando de um passarinho que, observado, deixa o eu-lírico extasiado com a epifania que lhe desperta: sem ter nada de seu, tem o céu azul onde voa e o  verdejar das árvores em que pousa, tendo assim "muito mais" que aquele que canta. Pra parar e pensar.

Agora, em 2016, sua voz levemente grave e agradavelmente doce está em "Gris", segundo álbum de Juliana Cortes, com parcerias que deixariam qualquer bom ouvinte interessado em conhecer.

Entre elas, "O Mal", com Arrigo Barnabé, que também participou da gravação, foi escolhida para o primeiro clipe do disco. A canção, lenta e ligeiramente suingada, diz de alguém que, pela primeira vez, encontra o mal em si, como se agisse criminosamente, sem nunca ter pensado nisso, por obrigação da realidade que se lhe apresenta. No vídeo clipe, diferentemente da faixa no álbum, a letra não se repete, é cantada apenas uma vez; porém dá algumas dicas de significados que a audição não nos ajuda a decifrar. Junto com a introdução da música, há, na tela, dois grandes olhos que se abrem repentinamente e que se mantêm arregalados por alguns segundos, quando é feito um corte para um quarto sombrio e simples, passando, a seguir, para tons de vermelho e marrom. Interessante é que no quarto há uma garotinha que desperta e se levanta (logo depois de desaparecerem aqueles grandes olhos da introdução) e esta é a Dorothy  de "O Mágico de Oz" (1939); quando a garotinha sai do quarto onde despertara, a cena muda para preto e branco, ela continua caminhando, e muda novamente par os tons de marrom e vermelho, ela se assusta com uma TV ligada à altura do chão e para pra olhar como se não soubesse do que se tratava. O clipe segue misturando elementos míticos e de fantasia, algumas apenas ilustrando o dito na letra, até que, no final, a menina Dorothy  é colocada em uma queda livre como aquela da famosa Alice no "País das Maravilhas". Entre anjos caídos, Dorothys despertas enfim e Alices em novo mundo, pode-se dizer, com a ajuda do vídeo, que esse mal era latente e necessário pra continuar a jornada heroica.

A parceria com Ramil e Leminski também é imperdível. "O Velho Leon e Natália em Coyoacán" pode referir-se a Leon Trótzki em sua passagem pelo México, onde foi assassinado por espiões russos, após ter fugido da perseguição de Stalin, usurpador do poder quando da morte de Lenin, que preferia como sucessor o camarada morto em Coyoacán. Assim pode ser entendida, além de com as marcas presentes já no título da canção, também por causa das palavras do poema, que contam de um dia que nunca mais se repetiria como um que já houvera em Petrogrado antes, cidade tomada pela revolução bolchevique em 1917.

"Saia Azul" (Dante Ozzetti/Chico Cesar), diz de alguém que tem em uma saia comprada por alguém que deixava as Minas Gerais pra não mais voltar e que se contenta em demasiado ao usar a tal saia comprada ao deixar a terra natal.

Mas tiro certeiro foi mesmo com "Indo ao pampa" (Vitor Ramil), equilibrando suavidade e gravidade tão bem que tem-se a impressão de flutuar ao ouvi-la; isso sem falar nas genialidades usadas no texto, genialidades como: "Quase ano 2000, / mas de repente avanço a 1838 (...) /  porque os homens por ali estão pra lá dos anos 2000", ao falar de alguém que retorna os pampas do Rio Grande do Sul; um pouco mais adiante, seguindo o refrão "eu indo ao pampa, o pampa indo em mim", representação certeira do que é a felicitação de reencontrar algo que vive dentro mesmo que esse algo esteja demasiado longe.


Se você ainda não conhece Juliana Cortes, não se demore em conferir suas obras primas: é prazer garantido; mas não se esqueça, só fará efeito se ouvir sentado, tranquilo e com tempo: pra pensar e sentir.




REFERÊNCIA


JULIANA CORTES

CRÍTICA





domingo, 31 de julho de 2016

ÁFRICA BRASIL

África Brasil

E doze anos antes também foi bissexto.


E, neste ano de acerto, de recuperação do prejuízo no tempo, em que o caldeirão de óleo fervente do entendimento e da democracia se derramou sobre os povos, um tal Jorge tão Ben quis cantar e tocar, do jeito que desse, do jeito que fosse, do jeito que dele viesse.

1964 foi o ano em que a liberdade e a repressão, cada qual a seu lado e modo, aumentaram em todo mundo, polarizando tudo e todos, nunca antes, nem depois, esquerda e direita foram tão antagônicos e distinguíveis.

No Hemisfério Norte, as reações populares contrárias às guerras, invasões e bloqueios se tornavam notícia frequente em todos os meios, ao mesmo tempo em que a caça e a repressão a pensamentos e pensadores de vanguarda e libertários se intensificava.

No Hemisfério Sul, as colônias, declaradas, se revoltavam e se articulavam, à esquerda, pra lutar por sua independência dos exploradores do Norte; as colônias, ‘liberadas’, davam seus primeiros, e últimos, suspiros de aspiração à libertação da influência imposta por seus antigos, e novos, colonizadores, em contraponto com a total militarização e antidemocratização de todos os governos, com apoio e auxílio total das potências econômicas do globo.

A cultura, em geral, se polarizava do lado das minorias, dos excluídos e do outro: modo de agir, modo de pensar, modo de dizer, modo de ser; artistas e intelectuais buscavam a aproximação do erudito com o popular, do novo com o antigo; queriam a estética do heterogêneo, em oposição ao homogêneo imposto pela elite dominante das décadas anteriores e aceito pelo povo dominado de então; o tom nas artes era a popularidade intelectual.

Já em primeiro de janeiro, estreava, na BBC, “Top of the Pops”, programa semanal que, por 40 anos, mostrou aos londrinos as músicas e os músicos mais vendidos; o popular começava a ter seus espaços no meio oficial.

Também foi neste ano que europeus conseguiram uma nova invasão das Américas, mais uma vez, causando choque e alvoroço: Brigitte Bardot em Búzios e “The Beatles”, and ‘friends’, no “Ed Sullivan Show”: as estrelas populares eram cada vez mais populares.

Aqui nos pobres trópicos, tivemos que nos retrair com a repressão militar e nos esperançar com os que lutavam pela democracia e pelo povo; no Brasil, João Goulart, prometia terra a quem não tinha e direitos a quem precisava, e foi deposto, no mesmo ano, pelo golpe militar de 31 de março: o povo, no Brasil, perdia a guerra pra elite. Na África, os partidos de esquerda se mobilizavam para pegar em armas e lutar para se libertar dos colonizadores europeus, sobretudo os de Portugal, que, por sua vez, também intensificava a ditadura militar sobre seu povo e suas colônias: o povo, no antigo império globalizador, iniciava sua luta por liberdade. Nas Arábias, os grandes produtores de petróleo se união pra enfrentar os reais interesses dos países que tanto precisavam do combustível extraído do ouro negro: os sultões, no islão, se defendiam e lucravam mais com a menina dos olhos dos países industrializados.

No Oriente, burocraticamente e forçadamente socialista, Nikita Khrushchov era substituído, e maldito, por quem sem sentia extremamente humilhado e prejudicado por sua política de agressividade ao expansionismo dos neoliberalistas e libertação e aproximação daqueles que sofreram com a perseguição do regime stalinista, quase chegou a bater no rosto de Mao Tsé, da China, com sua bota militar; rivalizou o quanto pode com os países da OTAN e com os Estados Unidos, em tudo. Acelerou a corrida espacial e armamentista, anulando, assim, a busca por hegemonia da América do Norte sobre o globo; o fim de seu governo agressivo marcou o início do colaborismo com os países colonialistas e o começo do caos soviético que culminou na desagregação da União e posteriores guerras étnicas nos Bálcãs: o socialismo, no Oriente, se rendia às estratégias de mercado.

Um ano depois, até Bob Dylan deixaria sua caipirice conscientizada de lado pra se tornar cosmopolita e lírico com uma banda de Folk Rock no apoio...

O ano da crise dos mísseis do bloqueio a Cuba, Outdoor de Khrushchov na beirada de Miami, também construiu o temperamento e o ideal de um principiante na indústria do entretenimento nascido em Madureira, mas criado em Rio Comprido, bairro do Rio de Janeiro, o único, localizado entre a Zona Norte, da residência e do povo, a Zona Sul, das praias e dos turistas, e a Zona Central, do comércio e do trabalho.

Em 1964, Jorge Ben - batizado como Jorge Duílio Lima Meneses, em 22 de março de 1945, por sua mãe migrante da Etiópia, casada com o estivador e pandeirista, Augusto Meneses, e morador da favela da Rua do Bispo -, já conhecedor e atuante da música feita pra noite carioca, lança seu primeiro disco, “Samba Esquema Novo”, onde misturava - sem filtro, sem artifício e sem malícia – tudo que ouvira e apreciara até então: Samba, Rock, Jazz, Bossa Nova... numa levada tão alegre e balançada, mesmo ao falar de lamentos amorosos, que deveria ser uma ótima pedida no salão de qualquer gafieira por que tenha passado. Sua música era tão dele e particular, ao mesmo tempo que refinada, que, mais tarde, sofreria até preconceito artístico por parte da mídia e de outros artistas por ser inclassificável e inimitável, por tanto, impossível de transformar em produto rentável ou movimento influenciador.

O disco foi muito bem recebido pela crítica da época que ‘previu’ seu esgotamento rápido nas lojas, assim como os anteriores de Jorge Ben lançados em 78 rotações.

Hoje, o LP figura em 15º entre os 100 melhores lançados no Brasil por compositores brasileiros.

Com essa obra, foi o primeiro compositor a ter destaque como genuinamente brasileiro, depois do sucesso da Bossa Nova entre os burgueses cariocas; com uma diferença gigantesca: Jorge Ben, e sua música, vinha da noite, do baile e da favela, era popular entre populares e era elite entre os elitizados, já que cantava e tocava como o pobre da favela e como rico do condomínio, sem malícia.

O que Jorge Ben fazia vinha de sua natural natureza, menino criado entre Brasil e África, no subúrbio limítrofe entre os bairros de trabalhadores e os bairros de investidores. Não podia ser outro tipo de pessoa que não Jorge Ben: cosmopolita, agregador e pela união.

Tanto assim era, que não mudou a fórmula: em todos os discos posteriores buscava a linguagem do total mistura formal. Só mudou mesmo foram os assuntos: de desejo por mulheres e de orgulho por heróis da pelota, passou a se preocupar mais com temas sociais e espirituais – coisa bem comum, aliás, na evolução temática e estética na grande maioria da produção artística de qualquer ícone em qualquer lugar -; Jorge Ben parecia, já naquele tempo, um artista maduro na forma, bastando pra ele ter novas ideia daquilo que poderia dizer em palavras, fato muito confortável pra o compositor e pra o fã identificado com a proposta estética, mas de muito pouca valia pra os produtores e pra os empresários do Showbiz, pois a fórmula não sofreria mutações, capazes de agregar novos ouvintes de novos tempos, e não poderia ser replicada sem que se fosse impossível lembrar do original. Portanto, Jorge Ben, e A Banda do Zé Pretinho, como João Gilberto, como Sepultura, como Chico Science... não poderia render altos lucros à indústria da música no Brasil. Porém a ideia assimilada e diluída em seus ‘descendentes’ chegados a partir de 1967 (Gil, Caetano, Mutantes, Tropicalistas e o Mangue Beat) continuou seu legado com igual e maior sucesso, com ajuda das novas tecnologias (sobretudo midiáticas), e acabaram por sofrer do mesmo mal de seu antecessor: pós Big Bang, se tornaram ícones de nichos intelectuais.

Depois de desencontros e desconfortos com a grande mídia, que o não conseguia domar, e em apresentações no exterior, grandeza pra qual, talvez, o menino - apesar de experiente na vida e na música – Jorge não estivesse preparado, e de alguns fracassos em vendas, mas não de crítica - pra variar – o verdadeiro brasileiro emplacou discos geniais: “A Tábua de Esmeralda” (1974), “Solta o Pavão” (1975) e “África Brasil” (1976), onde se aprofundava em seu engajamento místico e social – os dois primeiros muito mais espiritualistas e repletos de menções ao uso de ácido como meio de transcendência e este último com um grito por igualdade social do princípio ao fim.

Em novembro de 1975, Angola, depois de 20 anos de luta, conquista sua independência de Portugal, país que explorava com mãos de ferro sua última colônia em solo africano.

No ano seguinte, Jorge Ben, ainda chamado assim, grita e clama por zumbi libertador no LP “África Brasil”, também o de guinada libertária do criador do Samba-Rock.

No álbum anterior, “Tábua de Esmeraldas”, Jorge já fazia suas primeiras menções de abandono da antiga forma predominantemente acústica - seu instrumento, o principal da banda, era o violão -, pra adotar a eletrificação dos instrumentos da banda como nova e definitiva forma para a interpretação de sua composições. O disco de 1976 trazia o Jorge Ben agora de guitarras, e somente ele, em punho, era agora, concretamente, um cidadão do mundo. Antes de alinhamento com os movimentos de Black/Soul da América do Norte, foi também uma estratégia de mercado, com o fim de ser apreciado também pelo mercado europeu, que buscava exotismo cultural nos países periféricos; foi assim incluído no emergente World Music, novo gênero a incluir tudo que soasse a composição de sonoridade fora do bem conhecido do eixo Europa-EUA.

Jorge Ben se cosmopoliza definitivamente, mas no meio de um mundo que se retrai a fazer frente à crescente ânsia por liberdade a se espalhar pelo mundo, entre estas a dos movimentos negros, reprimidos nos Estados Unidos e na África, onde os afrodescendentes lutavam, fazendo uso de violência quando necessário, por liberdade, direitos sociais e independência.

“África Brasil” é a obra mais consciente de seu papel social e étnico composto pelo cantor de Madureira; mesmo não sendo tão explicito em todas as letras integrantes do disco, somente o fato de incluir em cada faixa instrumentos de origem africana, herdados do samba, já mostra sua clara intenção de se posicionar nesse ponto dos acontecimentos como afrodescendente, com implicações políticas e culturais. Outra evidência de tal é o quase que total abandono do modo bossanovista, do qual muito se aproveitou na década anterior pra conquistar seu espaço no main stream, mas que, apesar de ser oriundo do Jazz e do Samba – ou um outro modo de tocar Samba, como afirmava João Gilberto -, era um estilo já desgastado pela burguesia – nicho produtor e consumidor – e muito distante da realidade universal popular que ele então buscava. Agora o amor e o esoterismo em sua música davam lugar à luta social e à integração ao novo mundo a se globalizar.

Foi um grande sucesso de crítica e de venda, mais que os anteriores, figurando como o 22º melhor álbum já produzido, de uma lista de 50 – único brasileiro -, e, estranhamente, em 66º em uma dos 100 melhores do Brasil, ambas as listas publicadas pela revista "Rolling Stones".

A primeira faixa do disco é “Ponta de Lança Africano”, que pretende unir, assim como no título, os dois ‘continentes’ negros do globo: África e Brasil; dando uma ideia do que viria para o ouvinte do disco, e de Jorge, daí em diante.

Conta a história de um tal Umbabarauma, boleiro africano, mas conta-se que, na verdade, durante uma turnê pela França, Jorge Ben teria visto, na TV do Hotel em que se hospedara, uma partida em que um ponta de lança da África, Babaraum, num dia pra lá de inspirado, foi artilheiro da partida; mas, lendas a parte, o fato é que a faixa parece ter sido escolhida a dedo para encabeçar o set list do álbum: primeiro, por que faz referência clara à força do povo na letra, que se assemelha a um canto de guerra, com frases imperativas e positivas de avanço sobre o adversário, e fala do esporte popular mais popular; segundo, por que usa o soul mais requintado da “Motown” norte americana, que não tinha como característica principal o engajamento político, pra significar o começo de uma “batalha”, ou seja, no Brasil, como na África, como nos EUA, como na Europa, o negro passaria ter que lutar por igualdade de direitos e deveres, mas com swing, jeitinho e requinte. À primeira audição parece só mais uma canção de mais um brasileiro aficionado pela pelota e por seus mestres, mas não: é bem mais que isso; trata-se de um hino de luta por independência, e um aviso: o afrodescendente pode e quer muito mais do que aquilo que lhe sobra da estratificação estabelecida e do estado ordenador, os guerreiros das quatro linhas agora queriam ganhar também o globo.

O mais interessante é que, nesse momento mundial, os negros haviam avançado muito em suas lutas sociais, mas, no Brasil, qualquer organização e movimento étnico era reprimido pela ditadura com o mesmo afinco com que se reprimiam os grupos ‘terroristas’ que buscavam a restituição da liberdade democrática no país, como se mesma coisa fossem; mas todos sabemos que se assemelhavam somente no objeto: a liberdade, e não no meio, a luta e a clandestinidade, porém, talvez, tudo tivesse que mudar.

Ainda na onda soul a la “Motown”, e agora sem engajamento político (será?), o compositor se põe a falar um pouco mais do seu mítico misticismo, Jorge Ben, em “Hermes Trismegisto Escreveu”, retoma, pela primeira vez de duas nesse disco, um dos temas abordados em “Tábua de Esmeraldas”, dois anos antes, cantando, quase que infinitamente, a ideia principal da canção “Hermes Trismegisto e sua celeste Tábua de Esmeraldas”: “O que está em baixo/É como que está no alto/O que está no alto/É como que está em baixo, ele escreveu/Hermes/Trismegisto”. Porém, essa aparente alienação mística também tem, e muito, uma profunda reivindicação social, pois só haveria paz e harmonia quando todos percebessem o valor de fazer em baixo como aquilo que está no alto e de sentir no alto como aquilo que está em baixo, quer dizer, ele continuava explicando que também tinha direito ao mesmo sucesso social e humano que os da ponta de cima da estratificação mundial estavam retendo consigo. Assim, o característico refinamento e engajamento do som Black de Detroit ainda se valia nessa canção; isso sem mencionar que esse tal Hermes Trismegisto também faz parte da resistência mítica do Norte da África, redentora do próprio Alexandre, O grande, como nos conta Jorge Ben.

Mas o Jorge Ben descontraído e malemolente volta a atuar na terceira faixa “O Filósofo”, que, entre cuícas, atabaques e wahs, alegre no tom, na voz e no arranjo, fala de um tal filósofo que teria chegado falando de modo agradável que a simplicidade ainda era a lei primeira: “Ele chegou descontraído/Chegou filosofando num tom de voz meio angelical/Falando das coisas belas/E das coisas simples/Mostrando como o belo pode ser simples/E o simples pode ser belo”. É Jorge Ben mais uma vez falando do valor do que emana do povo: simplicidade certeira e descontração ajuntadora; podendo-se até imaginar que o tal “Filósofo” pudesse ser o próprio compositor no início da carreira, o que pode ser confirmado com a levada bem mais próxima do que havia feito em todos os álbuns anteriores, apesar de eletrificado, mas há que se levar em consideração também a importância dos batuques nesta faixa. O mais interessante é que, na música anterior, Jorge Ben cantou de outro modo com outros instrumentos o que já havia cantado antes e, nesta, canta como e o que já havia cantado antes, mas de guitarra em punho, anunciando sua total rendição à musica cosmopolita.

E as três partes de Jorge são apresentados agora em “Meus Filhos Meu Tesouro” com o andamento ligeiro e o tom de batalha mencionados nas duas primeiras faixas, mas mantendo a importância da brasilidade nos instrumentos de origem africana usados na faixa anterior. A letra também traz e lembra a velha e sabida brasilidade de Jorge, falando de um eu-lírico que pergunta a seus três filhos; Arthur Miró, Anabela Gorda e Jesus Correia (bem brasileiros, não?), o que pretendiam ser quando crescessem, ao que respondem: (Arthur Miró) “Eu quero ser jogador de futebol”, (Anabela Gorda) “Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário”, (Jesus Correia) “Eu quero ser tesoureiro-presidente ou liberal como você” (bem brasileiros, não?); Estes eram os de quem Jorge Ben sempre falou, pra quem sempre cantou, aqueles que agora iria defender e aqueles que pretendia deixar como tesouro da terra em detrimento do caduco mundo dos intelectuais e genocidas do hemisfério norte.

Em vez de um país do futuro, Jorge Ben nos oferecia os brasileiros do futuro, vencedores e governantes à sua maneira.

Será que Jorge Ben consegue se afastar por muito tempo de seu habitual e característico lirismo? Parece que não. “O Plebeu” conta a história de um pobre brasileiro apaixonado por uma princesa que só não tem seu amor realizado por causa de sua condição social; o plebeu de Jorge Ben chega até o absurdo de se contentar em esperar por um futuro casamento com ela, depois de vê-la passar por tantos outros, se contentando em ser o último já que, segundo ele, “O último será o primeiro/E o último sou eu”: é cúmulo e o ápice do sofrimento romântico. Mas também é possível fazer uma leitura social aqui, já que o próprio eu-lírico não se incomoda em dizer que, pra ambos os envolvidos na paixão, a condição social não importa: o verdadeiro empecilho viria de olhares e opiniões de terceiros (o que está em baixo deve permanecer em baixo, o que está no alto deve permanecer no alto).

E por falar em lirismo, o compositor foi buscar lá pros lados da velha e opulenta índia o maior, mais belo e mais caro monumento em homenagem ao amor de um homem e de uma mulher que se tem conhecimento, o “Taj Mahal”, que também dá título à sexta faixa de "África Brasil". Numa levada que lembra muito a marcha forte e acelerada dos atuais sambas-enredo cantados nas avenidas durante o carnaval, com direito a cuíca, agogô e surdo, o compositor explicaria o que viria ser “Taj Mahal”, mas se limita a explicar que se trata de um presente que o príncipe Shah-Jehan teria construído para sua amada Mumtaz Mahal, porém nem sequer menciona que se trata de um mausoléu, o maior do mundo. Parece que falta até hoje o “Taj Mahal II”, onde finalmente, poderíamos conhecer os porquês e os fatos da tal história de amor. Mas a canção vale pelo empolgante “Tê Tê Tê, Têtêretê” eterno, animador de qualquer princípio de festa.

Pra compensar a falha na narrativa de “Taj Mahal”, que não contou nada, “Xica da Silva”, a faixa sétima, conta com tantos detalhes as desventuras da Imperatriz do Tijuco, que torna-se desnecessário acompanhar o enredo pela telinha do cinema. A canção foi composta por encomenda de Cacá Diegues para o filme homônimo. Jorge Ben se limitou, ou se ateve, a apenas musicar o enredo fornecido pelo diretor. Pode até parecer mais um preguiçoso trabalho de brasuca orgulhoso de suas ajeitadinhas, mas trata-se, na verdade, de um recurso muito antigo, usado em larga escala inclusive por Shakespeare, de cantar uma narração valendo-se do verso branco, aquele que dispensa a rima, e do verso livre, que não reconhece o metro como valor estético; consiste em encaixar certa narração em ritmo e harmonia circulares e pré-definidos, tornando-se quase um mantra oriental, origem aliás deste tipo de composição. O resultado, inclusive, se mostrou bem acabado, eficiente e de bom gosto, especialmente se levarmos em conta a cacofonia, proposital, conseguida ao repetir no coro a sentença “Xica da, Xica da, Xica da, Xica da Silva”, dando impressão de referir-se ao ato sexual (Xica dá): era negra, era escrava, mas era linda e era sensual... virou Dona de Diamantina. É um legítimo coro grego feito à brasileira, com afoxé, cuíca, rebolos, guitarra swingando e vocalização feminina; na ausência dos atos e dos cenários, esta pérola serve muito bem a quem quiser saber um pouco da história privada das Minas Gerais.

De volta ao Funk Soul, mas agora com uma linha mais agressiva, influenciada pela do som de Memphis, propagado pela gravadora Stax, “A História De Jorge” é sobre um garoto que se gabava de ter um amigo, o tal Jorge, que voava e ninguém acreditava, virando, o menino, motivo de chacota, até que o amigo Jorge pareceu e se colocou a voar na frente de quem quisesse ver, enaltecendo a sinceridade e felicidade do garoto. Por que não poderia um simples menino ter um amigo capaz de voar? Sobretudo um que se chamasse Jorge? Por que não poderíamos nós ter uma amigo de Madureira capaz de encantar norte americanos e europeus? Pois temos.

Mas o disco também tem “Camisa 10 Da Gávea”, faixa que podia muito bem ser incluída nos álbuns anteriores mais ingênuos e despretensiosos, totalmente dispensável. É sobre futebol somente; fala da personalidade atlética do Zico, sempre portador da camisa 10 do Flamengo. No máximo, poderia-se tirar dessa canção algo como, se é preciso precisão certeira, só se pode recorrer a quem entende do assunto, e só. Totalmente dispensável.

Com “Cavaleiro Do Cavalo Imaculado”, o mito volta a fazer parte da temática Benjoriana; num Funk bem ritmado e agressivo, a canção retoma a força, a guerra e a resistência, usando de imagética evocadora de ícones: da força e do temor (leão do império/cavalo imaculado/Ministro de Zambi na Terra/Príncipe de toda África), enaltecendo um que seria responsável pela vitória e união dos da África: “Ele é leão do império/Cavaleiro do cavalo imaculado/Ministro de Zambi na Terra/O Príncipe de toda África/Salve o cavaleiro/Cavaleiro do cavalo imaculado”

Por último, a segunda, e definitiva, retomada de uma das faixas do disco anterior “Tábua de Esmeraldas”. “África Brasil (Zumbi)” é uma regravação, infinitamente melhor, de “Zumbi” do disco 1974. Nesta outra versão, o compositor trocou a bichogrilice sertanística da primeira por um bom exemplo do Soul de Memphis feito por brasileiros. O resultado não podia ser mais eficiente: a mesma letra, que soa a ameaça de vingança numa possível volta de Zumbi, com a força do som propagado pela Stax acrescida de instrumentos de origem africana e batidas firmes na guitarra swingada. A letra invocadora de batalha ficou muito melhor nessa nova roupagem, soa como alguém que realmente está indignado e que sabe da lei dos retornos. Vale demais a pena conferir, comparar e apreciar: “África Brasil (Zumbi) ”, “Zumbi”.

Jorge Ben, então, com "África Brasil", mudou de atitude: era sábio e manso, virou valente e guerreiro; siga-o quem puder.




REFERÊNCIA


JORGE BENJOR

SITE
Wikipédia
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
MPB.NET



ÁFRICA BRASIL 

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Terra



CRÍTICA

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